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  Meio Ambiente e Complexidade na perspectiva da Sustentabilidade
05/10/2010

RICARDO PASIN CAPARROS
SP - SAO BERNARDO DO CAMPO
Meio ambiente e sustentabilidade

Área(s) de Atuação que o Presente Artigo trata
Biologia
Ecologia
Meio ambiente


Complexidade Ambiental e a Revolução do Pensamento

        O século XX foi fortemente marcado pela vontade (ou necessidade) do ser humano de desvendar a natureza e conhecer seus limites e suas delicadas relações. Muitos eventos ocorridos neste período criaram condições ou tornaram inevitável o desenvolvimento das ciências ambientais. No sentido lato, podem ser citados os estudos de inúmeras doenças associadas às questões de higiene e condições de moradia, o modo de produção em série e seus impactos diretos sobre a natureza e a sociedade, o crescente desenvolvimento de estudos ambientais em diversas regiões do planeta com vistas no uso econômico dos recursos naturais, mas também na dimensão da conservação. Em escala mais específica, merecem destaque os testes nucleares e o efetivo uso do armamento nuclear no Japão e sua conseqüência direta sobre as pessoas e o mundo; o smog[1] inglês que provocou a morte de cerca de 1.600 pessoas em Londres e desencadeou o processo de conscientização sobre a qualidade ambiental e a saúde e fez com que o parlamento criasse a “Lei do Ar Puro” em 1956; o lançamento do livro Silent Spring (Primavera Silenciosa) de Rachel Carson que discute a perda da qualidade de vida em decorrência direta da degradação ambiental, tornou-se um clássico na luta ambientalista na década de 1960 até os dias de hoje. Na mesma década a expressão Environmental Education (Educação Ambiental) foi citada pela primeira vez na Inglaterra e, na ocasião, aceitou-se que a educação ambiental deveria tornar-se uma parte integrante da educação de todos os cidadãos.

        Na década de 1970, a preocupação global e efetiva com o meio ambiente tomou um corpo muito significativo. Em 1972, na cidade de Estocolmo, aconteceu a Conferência da ONU sobre Meio Ambiente Humano, que preconizou a necessidade de estabelecer uma visão global e princípios que serviriam de orientação à humanidade, para preservação e melhoria do ambiente urbano (Dias, 2003, p. 36). Ofereceu orientação aos governantes e estabeleceu um plano de ação mundial que, entre outras, recomenda um programa de educação ambiental visando educar o cidadão para o manejo e controle do seu ambiente. Em 1977, Tbilisi, capital da Geórgia sediou a Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental, um marco na história da luta pela mudança paradigmática acerca do meio ambiente. Nesta reunião teve início um amplo processo de construção de uma nova consciência sobre os valores ambientais e a reorientação da produção de conhecimento orientado pelo princípio do diálogo entre as diversas áreas do conhecimento e a complexidade (Dias, 2003, p. 37). Estes dois eventos de escala planetária tiveram fundamental importância no sentido de discutir a questão ambiental sob uma visão holística, considerando os múltiplos fatores envolvidos, sejam eles políticos, sociais, econômicos, educacionais, filosóficos ou biológicos.

        Tomar o meio ambiente em sua complexidade implica considerar que os diversos aspectos relacionados estão entrelaçados, formando uma trama que deve ser abordada de forma integrada, sob um enfoque sistêmico que requer um tratamento interdisciplinar. É compreender o todo em partes, sendo que cada parte também contém o todo. Morin (2004, p.38) define complexidade dizendo que “... há um tecido interdependente, interativo e inter-retroativo entre o objeto do conhecimento e seu contexto, as partes e o todo, o todo e as partes, as partes entre si”. Então, “... a complexidade é a união entre a unidade e a multiplicidade”. Este pensamento vem ao encontro do conceito de complexidade ambiental. A crise ambiental não encontra no pensamento linear e fragmentado a solução para seus problemas. A ode ao pensamento racional não foi capaz de entender e lidar com o mundo no sentido de sua viabilidade para as futuras gerações, ou seja, na dimensão da sustentabilidade.

        A complexidade ambiental é produto do pensamento humano e da reflexão crítica sobre os problemas do mundo. Não se limita à evolução biológica dos elementos naturais, nem ao ecologismo[2] sem fundamento ou aos aspectos meramente naturalistas. Esta nova forma de enxergar o mundo propõe a desconstrução da lógica unitária da ciência objetiva do domínio da natureza e do antropocentrismo. Ao contrário, convida à discussão de uma outra compreensão do mundo pautada em valores humanos, porém, entendendo o ser humano como uma espécie inserida na biosfera, o que determina uma nova forma de pensar e estar no mundo. O pensamento complexo no que se refere à causa ambiental considera o limite do conhecimento e a incompletude do ser e insere a reflexão sobre a natureza do mesmo. Entende a hibridação do conhecimento, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade como vias para o diálogo entre os saberes na busca da construção de caminhos para soluções possíveis. Considera a subjetividade e a intersubjetividade enquanto constituintes do ser humano e, sendo a ciência uma produção humana, também como constituintes do saber científico. Leff (2003, p. 23) afirma que inserir o pensamento complexo significa desconstruir o pensado para pensar o ainda não pensado, para desentranhar o mais entranhável dos nossos saberes para produzir o inédito, arriscando-se a dar cabo das nossas últimas certezas e a questionar o edifício da ciência. Neste contexto, a complexidade ambiental revoluciona o pensamento para transformar o conhecimento e construir um mundo sustentável.  



[1] Smog: espécie de neblina típica da cidade de Londres, porém uma neblina oleosa em decorrência da poluição ambiental. Causa sérias implicações no sistema respiratório, inclusive podendo levar a pessoa a morte. (smoke – fumaça + fog – neblina)

[2] A palavra foi empregada no sentido de movimentos de ação que conduzem à luta ambientalista, sem o devido fundamento ou buscando benefícios próprios de pessoas ou grupos.


RICARDO PASIN CAPARROS
SP - SAO BERNARDO DO CAMPO

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