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  Avaliação da funcionalidade de estruturas de condução de fauna na rodovia ES-060
14/10/2011

ANDREAS KIEKEBUSCH
ES - GUARAPARI
Rodovias afetam a fauna silvestre seja por impor perda de senso de direção e fragmentação de habitats, seja por interferir na mobilidade e dispersão desta, resultando na segunda maior causa de mortalidade de animais silvestres na atualidade.

Área(s) de Atuação que o Presente Artigo trata
Biologia
Meio Ambiente e Biodiversidade
Inventário, Manejo e Conservação da Fauna


Introdução

Segundo Clevenger & Waltho (2000), fundamentados em Bennett (1991) e Forman (1995), a teoria de corredores para estradas destaca seu papel funcional como canais, barreiras (ou filtros) e habitats.

Estes corredores podem ter grande significado ecológico (Forman & Alexander, 1998; Spellerberg & Morrison, 1998), por exemplo, naquelas paisagens onde a freqüência de mamíferos de maior porte cruzando estradas está crescendo a medida que as populações humanas se expandem e onde há construção de novas estradas bem como onde os recursos naturais estão sendo explorados em maior intensidade.

Na medida em que as estradas vão sendo melhoradas para acomodar um volume maior de tráfego, as taxas de travessias bem sucedidas de animais apresentam uma tendência à diminuição (Lovallo & Anderson, 1996; Apps 1999), tornando, em alguns casos, esta a principal causa de mortalidade animal (Maehr et al, 1991; van der Zee et al, 1992; Clarke et al, 1998), além de contribuem para a fragmentação de habitats e para o isolamento demográfico (Opdam et al, 1993; Gerlach & Musolf, 2000).

Para mitigar os impactos sobre a vida selvagem estruturas de cruzamento, Faunodutos, estão atualmente sendo projetados e incorporados em projetos de construção de estrada (Bekker et al, 1995; Foster & Humphrey, 1995; Keller & Pfister, 1997).

Porém, o que constitui projetos de proteção estruturais efetivos permanece desconhecido, uma vez que os processos intrínsecos ao ecossistema ainda permanecem desconhecidos, em parte, por causa das informações escassas atualmente disponíveis (Romin & Bissonette, 1996; Underhill & Angold, 2000). Uma razão para a falta de informações disponíveis, segundo Clevenger & Waltho (2004) é que, proporcionalmente, poucos são os programas de monitoramento das estruturas de mitigação implementados tanto na pré quanto na pós-construção dos empreendimentos rodoviários.

Deste modo, a maioria dos resultados obtidos nesses estudos permanece como meramente ilustrativa e, além disso, naqueles estudos que se fundamentam na coleta de dados a partir de metodologias mais robustas, geralmente falharam em considerar a necessidade da vida selvagem de se habituar ás amplas mudanças de paisagem (Opdam, 1997).

Tais períodos de habituação podem levar vários anos até que estas aprendam e ajustem os seus próprios comportamentos para as estruturas de travessia de rodovias, o que não ocorre de imediato (Clevenger & Waltho, 2004).

Adicionalmente, estudos efetuados no passado eram focados primariamente nas inter-relações das estruturas de transposição com espécies específicas, apresentando, assim, atenção limitada para fenômenos no âmbito mais abrangente do ecossistema (Reed et al, 1975; Ballon, 1985) resultando num potencial acoplador dos processos ecossistêmicos, por exemplo, na formação de zonas de refúgio de presa em relações de presa e predador (Clevenger & Waltho, 2000), o que acaba indicando que as estruturas para passagem de fauna silvestre são “seletivamente permeáveis”.

O sucesso aparente de programas de monitoramento de espécies individuais ou alvo pode falhar em reconhecer os limites de barreira imposta para outras espécies que não a alvo e, deste modo, sistemas de monitoramento podem acabar severamente comprometidos se baseados em simples extrapolação (Clevenger & Waltho, 2004), uma vez que a própria natureza é multifatorial (Valentim, 2000).

Isso posto, foram objetivos do presente trabalho estabelecer os índices de uso e seus respectivos potenciais, a determinação da eficácia das estruturas componentes dos dois complexos de faunodutos existentes ao longo da ES-060 através da averiguação das forças e debilidades das estruturas e da caracterização dos requisitos necessários para o adequado funcionamento destas, identificar as variações quanto ao uso por espécie e identificar as espécies que, mesmo empiricamente, apresentam indícios etológicos quanto à incorporação do hábito de uso das estruturas componentes dos faunodutos.

Desenvolvimento

A coleta de dados deu-se diariamente, exceto nos finais de semana e feriados, de modo ad continum no período de três anos, notadamente entre 2003 a 2006, através de observações in loco em sete passagens componentes dos dois complexos de faunodutos onde foram implantados sistemas de valas de registro locadas internamente nas duas extremidades das passagens e compostas por uma caixa de madeira com solo argiloso levemente umedecido que permitiram o registro de toda movimentação de entrada e saída destes faunodutos.

Os dados coletados em campo foram compostos por data e horário da observação, entrada e saída por lados distintos do exemplar pelo faunoduto, o lado pelo qual se deu essa entrada e a identificação da espécie utilizadora.

O trabalho de Mata et al (2002) apresenta, no seu transcorrer, uma série de resultados de índices de uso e comparação, tanto por tipo de estrutura, quanto por espécie, e, apesar de inserir-se em uma região biogeográfica bastante distinta da brasileira, acabou por servir como comparativo com os resultados apresentados no presente trabalho.

Assim, utilizou-se da fórmula do índice de uso e do índice de comparação, apresentadas na TABELA 1, para estabelecer o índice de intensidade de uso por tipo de estrutura de travessia, ou conjunto de estruturas, que compõe os complexos de faunodutos monitorados e o índice de comparação de uso destas buscando inferir sobre a dinâmica dos utilizadores destas estruturas.

Tabela 1 – Fórmulas para cálculo dos índices de uso e comparação dos faunodutos da ES-060

Fórmula

Descrição da variável

UI = (nij/Nj)/(nTi/NT)

UI= Índice de uso

nij = N° de dias com ocorrência de X espécies nas estruturas de travessia do tipo J.

Nj = N° total de estruturas de travessia do tipo J

Fórmula

Descrição da variável

UI = (nij/Nj)/(nTi/NT)

nTi = N° de dias com ocorrência em todas as estruturas de travessia

NT = N° total de estruturas monitoradas

Ic = Nij/nie

Ic = índice de comparação

Nij = N° de indivíduos utilizadores por passagem

nie = N° de utilizadores potenciais

 

De grande importância, também, foi à determinação do índice de ocorrência e o índice de dominância de cada espécie em cada um dos complexos componentes dos Faunodutos monitorados, que, conforme adaptação do proposto por Palma (1975) apud Abreu & Nogueira (1989) seguiram as fórmulas apresentadas na TABELA 2 e estabeleceram as classes de distribuição de 0,0% a 25,0% como acidental; de 25,0% a 50,0% como acessória e de 50,0% a 100,0% como constante para ambos os índices.

Tabela 2 - Fórmulas para cálculo dos índices de ocorrência e dominância

Fórmula

Descrição da variável

IO = (Nao /Nat) x 100

IO = Índice de ocorrência

Nao = número de amostras onde foi registrada a espécie

Nat = número total de amostras

ID = (Nie/Nti) x 100

ID = Índice de dominância

Nie = número total de indivíduos da espécie

Nti = número total de ocorrências

 

Os índices ecológicos calculados, considerando as comunidades tanto dentro do parâmetro de comunidade alpha quanto do parâmetro de comunidade beta, Shannon-Wiener para diversidade, Berger-Parker para verificação de dominância e Bray-Curtis para definição do grau de similaridade entre as espécies incidentes, possibilitaram um esboço comparativo entre as semelhanças e as diferenças tanto dos complexos de faunodutos, quanto das espécies incidentes no período de monitoramento. Diferentes estruturas e/ou composição de estruturas formam os complexos de passagens de fauna existentes sob a rodovia ES-060 subdivididas em Complexo 1 (Km 45) e Complexo 2 (Km 59).

Para a análise dos dados numerou-se as estruturas componentes de cada um dos complexos de 1 a 4 levando em consideração a característica de cada uma destas conforme  apresentado na TABELA 3.

TABELA 3Numeração das estruturas de transposição das passagens de fauna

Localização do complexo (Km)

Caracterização

N° (tipo)

45

Túnel

1

Manilha simples

2

Manilha tripla

5

Túnel

6

59

Manilha simples

2

Manilha dupla

3

Manilha dupla

4

 

Complementarmente, na tentativa de se estabelecer eventual preferência de uso por uma ou outra estrutura, bem como corroborar os resultados obtidos através do cálculo do índice de uso, efetuou se a análise utilizando o proposto por Johnson (1980) fundamentado nos procedimentos multi-comparativos descritos por Waller & Duncan (1969) que resultaram no índice de preferência.

Das 21 espécies utilizadoras dos faunodutos, conforme apresentado na TABELA 4 que também traz a variação quantitativa anual destes, Procyon cancrivorus mostrou-se como a principal, seguida por Caluromys sp e Tupinambis teguixin.

 

TABELA 4 – Quantitativo anual e total das espécies registradas nos faunodutos da ES-060

Espécie

Ano I

Ano II

Ano III

Total por espécie

Callitrix geoffreyi

0

1

0

1

Caluromys P

27

 57

6

90

Cavia sp

0

17

3

20

Cerdocyon thous

30

 8

21

59

Cuniculus paca

1

3

11

15

Dasypus novemcinctus

12

 8

15

35

Dasypus septemcinctus

0

8

6

14

Didelphis aurita

6

10

 10

26

(Continuação)

Espécie

Ano I

Ano II

Ano III

Total por espécie

Euphractus sexcinctus

7

6

38

51

Guerlinguetus ingrami

0

0

16

16

Holochilus sp

0

0

1

1

Hydrochoerus hydrochaeris

7

1

4

12

Leopardus sp

7

3

8

18

Lutra longicaudus

2

28

 23

53

Não identificado

0

2

2

4

Polychrus marmoratus

2

0

0

2

Procyon cancrivorus

90

 87

81

258

Sphigurus insidiosus

3

1

3

7

Sylvilagus brasiliensis

17

 6

13

36

Tayra Barbara

3

1

0

4

Tupinambis teguixin

16

 28

32

76

Total por ano

230

275

293

798

 

Dos 798 registros, 601 indivíduos ou 75,3% dos registros, deram-se no complexo do Km 45 e 197 indivíduos ou 24,7% dos casos ocorreram no complexo do Km 59.

Quando da aplicação da fórmula do índice de uso considerou-se duas situações distintas:

                     Quando do registro de indivíduos da mesma espécie utilizando uma mesma estrutura num mesmo dia, a ocorrência é igual a 1 (repetição = 1).

                     Quando do registro de indivíduos da mesma espécie utilizando uma mesma estrutura num mesmo dia, cada registro agrega um dia a mais a título de esforço de uso na fórmula matemática adotada (repetição = +1).

Assim, tiveram-se os cálculos e os resultados apresentados na TABELA 5 para a rodovia como um todo, para o Km 45 e para o Km 59 fundamentados para o quantitativo dos registros para cada complexo de faunodutos na primeira situação e na segunda situação.

TABELA 5 – Índices de uso do quantitativo total por tipos de estrutura do trecho da ES-­060 monitorado e por tipos de estrutura dos Km 45 e Km 59

ES-060

Assumindo que repetição = 1

Assumindo que  repetição = +1

UI de T1 = 3,48

UI de T1 = 4,91

UI de T2 = 2,09

UI de T2 = 2,65

UI de T3 = 1,02

UI de T3 = 1,31     

UI de T4 = 0,59

UI de T4 = 0,81

(Continuação)

ES-060

Assumindo que repetição = 1

Assumindo que  repetição = +1

UI de T5 = 1,96

UI de T5 = 2,29

UI de T6 = 1,53

UI de T6 = 1,77

UI de T1+T6 = 2,51

UI de T1+T6 = 3,34

UI de T3+T4 = 0,8

UI de T3+T4 = 1,06

Km 45

Assumindo que repetição = 1

Assumindo que  repetição = +1

UI de T1 = 2,68

UI de T1 = 3,77

UI de T2 = 1

UI de T2 = 1,08

UI de T5 = 1,52

UI de T5 = 1,77

UI de T6 = 1,19

UI de T6 = 1,37

UI de T1+T6 = 1,93

UI de T1+T6 = 2,57

Km 59

Assumindo que repetição = 1

Assumindo que  repetição = +1

UI de T2 = 0,40

UI de T2 = 1,07

UI de T3 = 2,17

UI de T3 = 1,66

UI de T4 = 1,01

UI de T4 = 1,39

UI de T3+T4 = 1,04

UI de T3+T4 = 1,35

 

Para corroborar tais resultados, procurou-se estabelecer o índice de preferência por estrutura dentro dos mesmos parâmetros de análise utilizados quando do cálculo do índice de uso, cabendo salientar, no entanto que o referido índice é estabelecido através da relação nº de estruturas por nº de indivíduos. Os resultados são apresentados, em ordem crescente (do maior negativo ao maior positivo) ou de preferência na TABELA 6 respectivamente para todo o trecho monitorado e para os complexos do Km 45.

TABELA 6 – Índice de preferência do quantitativo total por tipo de estrutura das áreas monitoradas na ES-060

ES-060

Assumindo T1 + T4 e T2 + T3

Assumindo  T1 e T4 ; T2 e T3

T1 + T6 = - 0,976190

T1 = -1,404762

T2 + T3 = - 0,404762

T2 = -0,357143

T5 = 0,428571

T6 = -0,071429

T4 = 0,952381

T5 = 0,142857

 

 T3 = 0,476190

 

 T4 = 1,214286

Km 45

Assumindo T1 + T4

Assumindo  T1 e T4

T1 + T6 = -0,785714

T1 = -0,976190

T5 = 0,285714

T6 = -0,071429

T2 = 0,500000

T5 = 0,309524

 

 T2 = -0,595238

(Continuação)

Km 59

Assumindo T2 + T3

Assumindo  T2 e T3

T3 + T4 = -0,205882

T3 = -0,294118

T2 = 0,205882

T2 = 0,058824

 

T4= 0,235294

 

Para o cálculo do índice de comparação da eficácia no que tange ao uso das estruturas, considerou-se o n° de indivíduos utilizadores das passagens de fauna e o n° de utilizadores potenciais por complexo estudado.

Assim, conforme apresentado na TABELA 7 e considerando o n° de indivíduos registrados e o n° de indivíduos potenciais utilizadores estimados através da técnica de procura sistematizada proposta por Buckland (1993, 2000), foi observado que, comparativamente, a eficácia das estruturas do Km 45 mostra-se maior do que as do Km 59, ou seja, uma maior proporção da população utiliza-se das estruturas componentes dos faunodutos do 1° que do 2°.

No entanto, deve-se considerar que no Km 45 ocorre a conectividade entre dois ambientes distintos, mangue e restinga alta enquanto que no Km 59, a conectividade se dá entre dois fragmentos de restinga alta sustentando a tese de que o maior trânsito entre ambientes distintos dá-se por intercâmbio entre populações de diferentes nichos ecológicos.

 

TABELA 7 - Índice de comparação de eficácia entre os complexos de faunodutos dos Kms 45 e 59

Km 45

Km 59

Nij = 601

Nie = 370

Nij = 166

Nie = 700

Ic= 1,624

Ic= 0,237

 

A TABELA 8 apresenta os índices de ocorrência (IO) e de dominância (ID) por espécie registrada nos dois complexos de faunodutos, permitindo inferir se a ocorrência foi acidental, esporádica (acessória) ou constante e, por conseguinte, determinar qual espécie é efetiva utilizadora das estruturas possivelmente já tendo incorporado o hábito de utilizar-se destas, quais as que ocasionalmente se utilizam dos sistemas de comunicação de fauna, ou quais apenas eventualmente, por mero acaso, utilizaram-se dos faunodutos para transpor a rodovia, bem como, qual o grau de dominância destas dentro do universo dos dados coletados.

TABELA 8 – Índices de dominância e de ocorrência das espécies registradas nos complexos de faunodutos da ES - 060

KM 45

Espécie

 IO

ID

Indicação

Callitrix geoffreyi

0,32

0,17

Ocorrência e dominância acidental

Caluromys sp

20

10,65

Ocorrência e dominância acidental

Cavia sp

6,13

3,16

Ocorrência e dominância acidental

Cerdocyon thous

14,52

7,99

Ocorrência e dominância acidental

Cuniculus paca

3,55

1,83

Ocorrência e dominância acidental

Dasypus novemcinctus

9,68

4,99

Ocorrência e dominância acidental

Dasypus septemcinctus

3,55

1,83

Ocorrência e dominância acidental

Didelphis aurita

5,81

3,33

Ocorrência e dominância acidental

Euphractus sexcinctus

14,84

7,82

Ocorrência e dominância acidental

Guerlinguetus ingrami

4,84

2,5

Ocorrência e dominância acidental

Holochilus sp

0,32

0,17

Ocorrência e dominância acidental

Hydrochoerus hydrochaeris

0,32

0,17

Ocorrência e dominância acidental

Leopardus sp

2,9

1,5

Ocorrência e dominância acidental

Lutra longicaudus

8,71

4,5

Ocorrência e dominância acidental

Não identificado

1,29

0,67

Ocorrência e dominância acidental

Polychrus marmoratus

0,65

0,33

Ocorrência e dominância acidental

Procyon cancrivorus

51,61

32,28

Ocorrência constante e dominância acessória ou esporádica

Sphigurus insidiosus

0,97

0,5

Ocorrência e dominância acidental

Sylvilagus brasiliensis

10,65

5,5

Ocorrência e dominância acidental

Tayra barbara

0,32

0,17

Ocorrência e dominância acidental

Tupinambis teguixin

18,71

9,99

Ocorrência e dominância acidental

Km 59

Espécie

 IO

ID

Indicação

Caluromys sp

25

15,06

Ocorrência e dominância acidental

Cavia sp

1

0,6

Ocorrência e dominância acidental

Cerdocyon thous

11

6,23

Ocorrência e dominância acidental

Cuniculus paca

4

2,41

Ocorrência e dominância acidental

Dasypus novemcinctus

4

2,41

Ocorrência e dominância acidental

Dasypus septemcinctus

1

0,6

Ocorrência e dominância acidental

Didelphis aurita

6

3,61

Ocorrência e dominância acidental

Euphractus sexcinctus

2

1,2

Ocorrência e dominância acidental

Guerlinguetus ingrami

1

0,6

Ocorrência e dominância acidental

Hydrochoerus hydrochaeris

10

6,63

Ocorrência e dominância acidental

Leopardus sp

8

4,82

Ocorrência e dominância acidental

Lutra longicaudus

8

4,82

Ocorrência e dominância acidental

Procyon cancrivorus

49

 35,54

Ocorrência esporádica no limiar com constante e dominância esporádica

Sphigurus insidiosus

4

2,41

Ocorrência e dominância acidental

Sylvilagus brasiliensis

3

1,81

Ocorrência e dominância acidental

Tayra barbara

2

1,2

Ocorrência e dominância acidental

Tupinambis teguixin

14

9,64

Ocorrência e dominância acidental

 

A partir dos dados apresentados na TABELA 9, referente aos diversos tipos de estrutura componentes dos faunodutos, nota-se que, efetivamente, há uma significativa variação entre os objetos monitorados e elementos ora analisados.

 

TABELA 9 - Sumário estatístico referente às estruturas componentes dos faunodutos

Estrutura

Média de indivíduos por espécie

Variação de n° de indivíduos por espécie em %

Desvio padrão

Erro padrão

N° de indivíduos total

N° total de espécies

Máximo de indivíduos por espécie

Intervalo de Confiança Médio

Tipo 1

13,476

350,462

18,721

4,085

283

18

72

149,895

Tipo 2

7,571

212,657

14,583

3,182

159

16

66

90,955

Tipo 3

3,476

35,762

5,98

1,305

73

13

22

15,296

Tipo 4

2,238

12,99

3,604

0,786

47

11

15

5,556

Tipo 5

6,333

173,733

13,181

2,876

133

14

46

74,307

Tipo 6

4,905

66,59

8,16

1,781

103

16

37

28,481

 

O cálculo de índices ecológicos corroboraram e ressaltaram a variabilidade entre os complexos de faunodutos, sendo fundamentais para possibilitar o esboço da dinâmica incidente e estabelecer as suas variações.

O índice de diversidade de Shannon-Wiener indicou que há uma menor probabilidade de uma determinada seqüência de espécies serem capturadas no Km 59 do que no Km 45, ou seja, mesmo com um n° menor de registros, a diversidade neste é significativamente maior. Já o índice de Berger-Parker, baseado na importância proporcional da espécie mais abundante, a indicação resultante é verossímil à medida que Procyon cancrivorus se coloca, em todas as análises, como predominante e, como tal, põe-se como de maior relevância no Km 45 do que no Km 59.

A TABELA 10 por sua vez apresenta o índice de Bray-Curtis entre os complexos de faunodutos onde observou-se que a similaridade dos registros considerando as espécies utilizadoras no Km 59 é significativamente maior que no Km 45, corroborando a hipótese de que em ambientes distintos possivelmente há uma tendência de maior variabilidade entre os utilizadores e, portanto, a seletividade encontra-se também arraigada nos ecossistemas que são interligados pelas estruturas que compõe os faunodutos.

TABELA 10 – Grau de similaridade entre os complexos estabelecidos pelo índice de Bray-Curtis

Agrupamentos

 Clusters

Dissimilaridade

Similaridade

1

2

59,84355

40,15645

2

1

79,69543

20,30457

Matriz de similaridade

 

 

45

50

59

45

*

9,8101

40,1565

59

*

*

*

 

Conclusão

Os resultados obtidos indicam a existência de uma série de diferenças e de semelhanças entre os complexos de faunodutos e seus componentes, assim como entre as espécies que se utilizam destes.

Estas, por si só, já evidenciam e caracterizam essas diferenças e/ou semelhanças, no entanto, listá-las auxilia tanto na sua visualização quanto na compreensão do por que das afirmações e/ou suposições citadas ao longo do presente trabalho, como segue:

·        A espécie Procyon cancrivorus foi, durante todo o período, a que mais se utilizou das passagens de fauna levando os resultados obtidos a subsidiar a hipótese, fundamentado principalmente nos índices de ocorrência e dominância, de que esta, possivelmente, já tenha agregado aos seus hábitos o uso destas estruturas, em especial a do tipo manilha simples nos complexos 45 e 59.

·        Observa-se que o uso dos faunodutos por Procyon cancrivorus manteve-se constante ao longo dos anos, chegando, no entanto, a perder espaço para outras espécies que, paulatinamente, apareceram como espécies que também indicam, lentamente, incorporar o hábito de uso das estruturas como Caluromys sp, Sylvilagus brasiliensis, Tupinambis teguixin, Lutra longicaudus entre outras.

·        Cerdocyon thous foi se distanciando de sua posição inicial, no entanto, deve-se salientar que novas espécies foram acrescidas ao conjunto de informações obtidas ao longo do período amostral, não deixando, entretanto, de ser espécie de significativa relevância no quadro de utilizadores dos faunodutos.

·        O índice de Bray-Curtis indica uma diversidade maior de espécies utilizadoras do complexo de faunodutos do Km 45, possivelmente em função dos diferentes ecossistemas interligados por estes.

·        Encontrou-se no complexo do Km 45 o maior numero de utilizadores, bem como maior diversidade de espécies registradas.

·        Os índices ecológicos corroboraram as diferenças entre os complexos amostrados

·        Apesar de diferenças nos resultados obtidos tanto dos índices de uso quanto nos índices de preferência, quando comparados, ambos evidenciam que todas as estruturas são significativamente funcionais para diferentes espécies havendo alternância de uso destas podendo ser observado que cada espécie apresentou tendência de uso para um determinado tipo de estrutura.

·        A maioria das espécies apresentou certa similaridade quando de suas ocorrências, possivelmente resultado de seus registros terem sido acidentais, ou seja, utilizaram-se por um acaso das passagens de fauna não obstante todos os complexos de faunodutos apresentaram uma espécie dominante e de presença constante.

·        Aparentemente quando um indivíduo se dispunha a entrar na passagem de fauna, ele efetivamente acabava por transpor a rodovia.

·        A partir das informações de atropelamentos de fauna nos trechos de abrangência dos faunodutos apresentados por Kiekebusch (2007) nota-se que a mortalidade de exemplares utilizadores destas estruturas caiu a taxas de pouca ou nenhuma significância indicando a funcionalidade destes elementos de transposição da rodovia amostrada.

Referências

ABREU, P. C. O. V. & NOGUEIRA, C. R.. Spatial distribution of Siphonophora species at Rio de Janeiro Coast Brazil. Ciência e Cultura 41: 897–902, 1989.

ADAMS, L. W. & GEIS, A. D. Effects of Highways on Wildlife.

Federal Highway
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ANDREAS KIEKEBUSCH
ES - GUARAPARI

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