retorna
  :: Artigo selecionado
  Sustentabilidade
05/10/2010

RICARDO PASIN CAPARROS
SP - SAO BERNARDO DO CAMPO
Princípios da sustentabilidade ambiental

Área(s) de Atuação que o Presente Artigo trata
Biologia
Ecologia
Meio ambiente


        Desequilíbrios ecológicos, escassez de recursos, pobreza extrema, vulnerabilidade social apresentam-se como resultados de sinergias negativas de crescimento, oriundas da racionalidade típica da modernidade. (Leff, 2001, p.403). Nesse sentido, o mundo que temos à nossa disposição hoje é resultado do modelo econômico, imposto pela modernidade e pela crença no crescimento ilimitado da economia e das nações. Gerações e mais gerações foram ensinadas que os recursos da Terra são abundantes e ilimitados. Em geral, as sociedades humanas vivem como se fossem a última geração de seres vivos a habitar o planeta. Os padrões de consumo das sociedades têm demonstrado esta situação. O consumo desenfreado, desnecessário, ilimitado, estimulado por fatores diversos provenientes de uma sociedade de consumo, a prática de consumir, o consumismo. A inconseqüência no uso ou no desperdício dos recursos naturais como a água e o solo, o desrespeito às culturas, etnias e saberes populares, são posturas que denotam a situação do mundo atual e questionam os padrões do desenvolvimento econômico. A insustentabilidade do planeta questiona os fundamentos do nosso ser (estar sendo) no mundo, cujos alicerces estão nas bases dos processos civilizatórios (Leff, 2001, p. 17). Dessa forma, a questão da sustentabilidade reflete, antes de tudo, a crise das civilizações.

        O conceito de desenvolvimento sustentável surge no cenário mundial em 1987, publicado no relatório “Our commom future” (Nosso Futuro Comum), também conhecido como relatório Brundtland, desenvolvido por uma comissão de importantes cientistas de diversas áreas que se reuniram mediados pela então primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland. Nesta ocasião, o Brasil estava representado pelo professor Paulo Nogueira Neto[1], na época, professor de Ecologia Geral da Universidade de São Paulo e primeiro secretário da Secretaria Especial de Meio Ambiente. Neste relatório, surge o conceito de desenvolvimento sustentável, e é definido como:

 

O Desenvolvimento Sustentável é aquele que atende as necessidades do presente, sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem suas próprias necessidades (Comissão Brundtland – Nosso Futuro Comum, 1988, apud Dias, 2003, p. 120)

 

        O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA, juntamente com The World Conservation Union – IUCN e o World Wildlife Fund – WWF entendem o desenvolvimento sustentável como aquele capaz de:

 

Melhorar a qualidade de vida humana dentro dos limites da capacidade de suporte dos ecossistemas (PNUMA, IUCN, WWF, apud Dias, 2003, p. 121).  

 

        Dessa forma, a sustentabilidade representa um paradigma de desenvolvimento pautado em outros valores que consideram a existência e a qualidade de vida no planeta (e não só a vida humana) como o fator mais importante a ser considerado nas relações econômicas, políticas e sociais. O desenvolvimento sustentável não é centrado na produção, é centrado na vida. E vai além, quando considera as futuras gerações (que fisicamente ainda não existem e, por conta disso, não têm condições de lutar pelo seu mundo) na busca de condições para que esta situação se sustente ao longo do tempo.

        O paradigma da sustentabilidade acredita ser possível desenvolver sem destruir, e preconiza a construção de sociedades justas, ambientalmente responsáveis, produtoras e produto do seu desenvolvimento. Para atingir esta condição, torna-se necessário romper o “círculo vicioso” de produção e consumo que destrói o meio ambiente e compromete as futuras gerações. O desenvolvimento sustentável constitui o espaço de intersecção entre o desenvolvimento econômico, a justiça social e a preservação ambiental. Dessa forma, a sustentabilidade não constitui um estado, mas sim um processo de construção histórica ao longo do tempo. Representa o encontro político entre a agenda social e ambiental inserindo uma dinâmica socioambiental que considera aspectos ecológicos, ambientais, culturais, políticos, sociais, econômicos e institucionais. A sustentabilidade transcende uma solução fundada meramente na consciência ecológica e aponta para uma solidariedade transgeracional (Leff, 2001, p. 412).

        Uma vez reconhecida a insustentabilidade do modelo de desenvolvimento vigente, e na dimensão da criação de sociedades sustentáveis, fica evidente a necessidade de discutir estratégias na busca da ruptura paradigmática. Nesse sentido, a Organização das Nações Unidas – ONU – promoveu mais uma vez um encontro mundial para discutir as bases da sustentabilidade. A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, aconteceu no Rio de Janeiro, em 1992 e ficou conhecida como Rio 92 ou Eco 92. Nesta ocasião, o desenvolvimento sustentável foi visto como um modelo a ser buscado. A educação ambiental foi reconhecida como uma estratégia fundamental para promoção desse novo modelo. Mais uma vez, as discussões promovidas e os relatórios produzidos deixaram claro que muito pouco se resolve sobre a questão ambiental sem a devida concentração de esforços e recursos no campo da educação.

        A Rio 92 recomendou a união das nações para evitar uma catástrofe global e produziu um documento de compromisso com as gerações do século XXI, a Agenda 21. Em suas diretrizes a Agenda 21 traz orientações para que os países possam construir seu desenvolvimento em bases sustentáveis em diversos segmentos da administração pública, da iniciativa privada, além de incentivar a participação popular por meio de órgãos representativos e organizações não governamentais. As questões discutidas na Agenda 21 envolvem dimensões econômicas e sociais, conservação e manejo dos recursos naturais, fortalecimento das comunidades e meios para sua implementação.

         A construção da sustentabilidade demanda, pois, um outro tipo de desenvolvimento, diferente do que temos visto. A questão que deve ser discutida neste momento é se somos vítimas ou cúmplices desse processo. Será que nosso modo de vida não está contribuindo para a perpetuação do modelo econômico vigente? Por melhor intencionados e solidários com a causa socioambiental, nosso comportamento está de acordo com nossos compromissos? Queremos realmente romper este paradigma rumo à sustentabilidade? Enquanto estas e outras perguntas não forem respondidas de forma convicta por uma grande parcela da sociedade, continuaremos vivendo no mundo que construímos, só não sabemos até quando. 

 

Sociedades Sustentáveis

        Partindo do princípio de que é possível haver desenvolvimento sem  comprometimento do meio ambiente, e tendo o paradigma da sustentabilidade como prioridade no que tange à existência e conservação da vida no planeta, torna-se necessário repensar a dinâmica da sociedade como um todo.

        É essencial que a sociedade possa reconhecer e incorporar valores e atitudes sustentáveis, na perspectiva da construção de espaços sustentáveis. Não basta um desenvolvimento econômico sustentavelmente amparado, se a sociedade não estiver preparada para este outro modo de estar no mundo. É necessário educar não só nossas crianças em bases sustentáveis, mas também, toda a população para esta realidade. E este é um papel de todos os segmentos (jovens, adultos e velhos) de todas as classes sociais e de todas as culturas, ou seja, é um compromisso da espécie humana para com o planeta.  A discussão deve acontecer em todas as esferas da sociedade no sentido de buscar as bases da sustentabilidade para que possam ser pensadas e incorporadas.

        Sociedades sustentáveis podem ser enunciadas como aquelas que buscam o equilíbrio dinâmico entre população e território, diminuindo a pressão sobre os recursos naturais. Capazes de identificar os atores sociais e as relações de interdependência associadas às questões socioambientais. Populações livres, com voz, pró ativas no sentido dos rumos do seu desenvolvimento, que participam na elaboração de políticas públicas associadas ao meio ambiente e à qualidade de vida. Sociedades com práticas ambientalmente saudáveis, formadas por consumidores conscientes de suas atitudes e comportamentos, na dimensão do compromisso com as futuras gerações.

        ”Neste sentido, a educação converte-se num processo estratégico com o propósito de formar valores, habilidades e capacidades para orientar a transição para a sustentabilidade” (Leff, 2001, p.237). A educação que constrói valores ambientais faz parte da educação para a sustentabilidade, ou seja, a educação ambiental inclui-se em uma educação plena, comprometida com os valores humanos e com a sustentabilidade do planeta. Dessa forma, a educação deve ser vista como direito e dever de todos. Todos são aprendizes e educadores de uma educação crítica e inovadora no sentido de formar cidadãos com consciência local e planetária, atuantes políticos da transformação social. Esta nova sociedade entende a relação ser humano X natureza sob uma perspectiva holística e integradora, respeitando as diferenças culturais entre os povos. Trata as questões globais, suas causas e inter-relações com um enfoque sistêmico, contextualizada histórica e socialmente. Mobiliza a participação popular de todos os segmentos no sentido do diálogo e da construção de uma realidade justa e de um futuro possível.

        O paradigma do desenvolvimento e da sustentabilidade em todos os sentidos demanda o desenvolvimento de uma consciência ética sobre todas as formas de vida com as quais compartilhamos o planeta. Os recursos oferecidos pela Terra são suficientes, desde que manejados de forma inteligente e ética. Segundo Morin (apud Leff, 2001, p.242) surge daí a emergência de uma nova antropologia que busque recuperar o paradigma perdido, reintegrando o ser humano à mãe natureza.

        Na dimensão da educação, urge a necessidade da educação ambiental que se expressa no contato do ser com seu entorno natural, social e cultural, na perspectiva da multi-causalidade e das inter-relações. Para Leff (2001, p.244), Paulo Freire comenta o surgimento da educação ecológica popular, inspirada na pedagogia do marginalizado e do oprimido e no caráter libertador e emancipador da educação, mas ressignificada por princípios da sustentabilidade ecológica e diversidade cultural.



[1] Primeiro secretário da Secretaria Especial do Meio Ambiente (1974-1986), Paulo Nogueira-Neto é formado em Ciências Jurídicas e Sociais, bacharel em História Natural, doutor em Ciências e professor titular aposentado de Ecologia Geral, no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Foi membro da Comissão Brundtland para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Nações Unidas), ex-presidente e membro do Conselho Nacional do Meio Ambiente, presidente do Conselho de Administração da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental de São Paulo (Cetesb) e presidente da Associação de Defesa do Meio Ambiente (Ademasp), a mais antiga associação de defesa do meio ambiente do país.

 


RICARDO PASIN CAPARROS
SP - SAO BERNARDO DO CAMPO

Indique este Artigo enviando o Link:
http://www.crbiodigital.com.br/portal?txt=37773732


 retorna

 

  :: Pesquisa Artigos
contenha a palavra 
Regional 
Nome do(a) Biólogo(a) 


pesquisar



Copyright 2007  -   contatocrbiodigital@crbiodigital.com.br  -   privacidade