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  Educação para um futuro possível
05/10/2010

RICARDO PASIN CAPARROS
SP - SAO BERNARDO DO CAMPO
Princípios para educação para a sustentabilidade

Área(s) de Atuação que o Presente Artigo trata
Biologia
Educação
Educação ambiental


         Pensar no amanhã com os pés fincados no presente representa uma condição sine qua non para planejar um futuro possível e constitui um grande desafio no caminhar para a sustentabilidade. A humanidade contemporânea tem em suas mãos as rédeas do destino do planeta, incluindo todas as formas de vida, principalmente, as gerações futuras. Será responsável também pelo mundo que será deixado como herança para essas pessoas. Diversas civilizações antigas deixaram marcas de sua passagem pelo planeta. Os gregos por meio de suas obras arquitetônicas e os avanços no campo da filosofia e ciências, os egípcios e suas majestosas pirâmides, os romanos, as civilizações andinas, enfim, todas, de alguma forma deixaram indícios de sua existência e contribuições para as futuras civilizações. Nenhuma dessas e muitas outras são conhecidas por nós pelo fato de terem extinguido espécies, deixado montanhas de lixo ou ainda pela degradação causada ao meio ambiente. Seriam as civilizações contemporâneas as primeiras a deixarem este rastro como marca de sua existência? Seriamos, nós e nosso modo de vida, os responsáveis pelo início da destruição do planeta? Os fatos denotam que até o presente momento da história contemporânea a resposta para essas perguntas é sim. De um modo geral, vivemos como se fôssemos a última geração a habitar a Terra, com os pés fincados no aqui e agora e a cabeça no eu e no meu. Não consideramos a viabilidade de um futuro em nossas ações cotidianas, especialmente no nosso padrão de consumo. Não fomos educados a compartilhar os recursos oferecidos pelo planeta de forma atemporal. Nesse sentido, a humanidade se mostra inconseqüente para com as gerações que ainda não nasceram.

         A educação como via de formação de seres humanos assume um papel fundamental na mudança dessa forma predatória e egoísta de estar no mundo. Por meio de uma educação pautada em valores humanos e comprometida com um futuro possível é que as pessoas poderão desenvolver uma postura ética com relação aos que ainda virão. Esta alternativa de educação aqui proposta não se reconhece nos processos educacionais que, via de regra, têm sido realizados dentro e fora das escolas. Muito menos nos grupos que se utilizam da educação bancária, aquela educação comprometida com os interesses das elites, na educação que tem por objetivo manter a opressão sobre as massas no sentido de anulá-las e manipulá-las. A educação para o futuro é contra-hegemônica em sua essência e popular na sua prática. É aquela que se pauta na construção de valores e saberes necessários para estas e para as futuras gerações.

         Nesse sentido, Edgar Morin (2004) afirma que há para sete saberes fundamentais que a educação voltada para o futuro deveria tratar em toda sociedade e em toda cultura, sem exclusividade ou rejeição e segundo modelos adaptados a cada sociedade e a cada cultura. Estes valores referem-se àqueles associados com a condição humana e com o comprometimento ético para com o planeta, os seres vivos e, em especial os seres humanos, numa perspectiva atemporal, ou seja, enquanto a Terra oferecer condições de sobrevivência[1]. Para Morin, o primeiro dos sete saberes necessários à educação do futuro envolve “as cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão”, em que discute o conhecimento e o erro. A educação que se limita a transmitir conhecimentos e informações ignora a dimensão da formação humana e tende ao erro e a ilusão de aceitar o conhecer, sem, na verdade, participar do processo de construir conhecimento. “O conhecimento, sob forma de palavra, de idéia, de teoria, é fruto de uma tradução/reconstrução por meio da linguagem e do pensamento e, por conseguinte, está sujeito ao erro” (Morin, 2004, p.20). Em outras palavras, quando o indivíduo não participa do processo de construção do conhecimento, fica a mercê de interpretações e erros daqueles que o desenvolveram ou transmitiram. Dessa forma, tudo o que foi transmitido parece ser uma verdade absoluta, um saber intocável, indiscutível.  

        A educação deve mostrar a vulnerabilidade do conhecimento e construir a idéia que não existe saber que não esteja sujeito ao erro. Aceitar as incertezas do conhecimento e discutir amplamente as possíveis causas do erro são valores fundamentais para a educação do futuro. Morin corrobora com essa afirmação quando coloca: “o conhecimento do conhecimento, que comporta a integração do conhecedor em seu conhecimento, deve ser, para a educação, um princípio e uma necessidade permanente” (2004, p.31). O segundo saber representa “os princípios do conhecimento pertinente”, em que surge a discussão da fragmentação do conhecimento como um impedimento da compreensão da complexidade do mundo. No caso específico da educação ambiental, a compartimentalização dos saberes inviabiliza o entendimento da essência da questão, na inteireza dos aspectos que a compõem. Assim, a educação do futuro deve desenvolver a aptidão natural do espírito humano para situar todas as informações em um contexto complexo.

        Com relação a estar no mundo sob uma óptica individual e coletiva, Morin apresenta dois saberes fundantes: a condição humana e a identidade terrena. A condição humana deveria ser objeto primeiro em qualquer modalidade de educação. Hoje no mundo existe apenas uma espécie representante dos hominídeos, o Homo sapiens. Esta espécie é fruto de um particular e bem sucedido processo evolutivo a partir de outras espécies animais menos desenvolvidas. Do ponto de vista biológico, carregamos em nosso lote genético[2] características remanescentes dessa animalidade. Portanto, somos animais que passaram por um processo de complexificação social durante o qual, surgem a linguagem, a postura bípede, a cultura, as relações especificamente humanas e outras muitas características. Esta condição de espécie humana traz consigo uma trama de elementos que nos difere de todas as demais espécies do planeta e caracterizam o que Morin chama de Homo complexus.

O ser humano é um ser racional e irracional, capaz de medidas e desmedidas; sujeito de afetividade intensa e instável. Sorri, ri, chora, mas sabe também conhecer com objetividade; é sério, ébrio, extático, é um ser de violência e de ternura, de amor e de ódio; é um ser invadido pelo imaginário e pode reconhecer o real, que é a consciência da morte, mas que não pode crer nela (...). (Morin, 2004, p.59).   

        É dever da educação para o futuro formar seres humanos conscientes de sua condição de Homo complexus.  Situar o ser humano no mundo, entender nossa espécie como parte integrante de um todo maior que constitui o universo, faz parte do ensino da condição cósmica da vida. Vida física, composta pela mesma matéria dispersa no universo e na Terra, nossa casa no cosmos. Por isso devemos entender nossa identidade terrena, ou seja, o planeta Terra como nossa pátria, independente de divisões políticas, geográficas, sociais ou econômicas. Ensinar a identidade terrena é fator fundamental no que tange a superação dos conflitos econômicos, políticos ou outros que obstaculizam e aumentam a distância entre o mundo de hoje e o paradigma da sustentabilidade.

        Educar para “enfrentar as incertezas” constitui outro saber para Morin. Posto que a ciência não apresenta respostas para todos os questionamentos, e que quanto mais avanços científicos são feitos, mais dúvidas e possibilidades surgem, “é preciso aprender a navegar em um oceano de incertezas em meio a arquipélagos de certezas” (Morin, 2004, p.16). A educação deve preparar para o enfrentamento do inesperado, do imprevisto, da incerteza e lançar um olhar cuidadoso sobre as verdades absolutas. Neste mesmo sentido, o autor refere-se a “ensinar a compreensão”. Compreensão humana entre povos, culturas de diferentes origens, compreensão individual do outro, das relações próximas. Compreender demanda consciência da complexidade humana, por outro lado, a incompreensão de si, leva à incompreensão de tudo. Há um forte grau de intersubjetividade nesse processo. Compreender implica identificação, projeção, abertura para o outro. A compreensão é a via para a tolerância entre os povos como caminho para a paz no mundo. 

        O sétimo saber necessário à educação do futuro, para Morin, envolve a “ética do gênero humano”. Nesse sentido, a educação deveria conduzir ao desenvolvimento de uma ética propriamente humana, o que Morin chama de “antropo-ética” (2004, p.106). Segundo essa concepção, a educação deveria corroborar para a decisão consciente e esclarecida das pessoas em assumir a condição humana de indivíduo/sociedade/espécie a um só tempo; buscar a humanidade dentro de cada um e assumir o destino humano incluindo sua realidade complexa. A antropo-ética deve caminhar no sentido de conceber a idéia da humanidade como comunidade planetária e adotar a Terra como pátria primeira de todos os seres humanos. E os esforços no sentido de salvá-la da autodestruição tornam-se prioridade em todos os sentidos.

        A educação para um futuro possível deve orientar de forma decisiva a formação das gerações atuais no sentido de construir um pensamento complexo, aberto às indeterminações e mudanças e à possibilidade de produzir novas leituras possíveis do mundo. É aquela que favorece o desenvolvimento humano em bases sustentáveis. Deve contribuir para a construção de sociedades ambientalmente prudentes, socialmente justas, politicamente atuantes e culturalmente diversas. Os valores ambientais associados à educação devem ser trabalhados por meio de diferentes meios, não só pelos processos formais. Para Leff (2001, p.244), esses valores envolvem desde os princípios ecológicos (harmonia com a natureza), passando por uma nova ética política, até os interesses sociais de um povo, a redefinição de um estilo de vida, uma nova ordem econômica. Reigota afirma ser muito difícil introduzir os valores ambientais tendo como bases os parâmetros clássicos da educação (2002, p. 81). A educação que pensa no futuro inscreve-se dentro de um processo estratégico que estimula a reconstrução coletiva e a reapropriação subjetiva do saber. Para Santos Neto (2005) o maior desafio da educação é o desafio da esperança e da crença em nossa possibilidade de reinventarmos o mundo. Assim, em um possível diálogo entre Paulo Freire e Edgar Morin, no sentido de repensar a educação e os espaços onde ela ocorre, Santos Neto refere-se a uma educação que vem ao encontro dos propósitos aqui apresentados. Essa educação deve contribuir para a formação do cidadão consciente de sua condição de ser social, de seu inacabamento e de sua condição de Homo complexus. Estabelece o diálogo e a escuta sensível na relação educador-educando, pois o conhecimento também passa pela via afetiva e se faz de forma intersubjetiva. Além disso, é necessário “o cuidado, na perspectiva ecológica, com a casa comum que é o planeta Terra” (2005, p.06), no sentido de compreender, interagir e respeitar as relações de interdependência entre todas as coisas que constituem o mundo, sejam elas humanas ou não. 

        A educação ambiental constitui um importante elemento da educação comprometida com o futuro. Suas bases envolvem a mudança de comportamento refletida em atitudes responsáveis para com o planeta. Dessa forma, possui uma importante dimensão política, pois prepara o cidadão para exigir justiça social, cidadania nacional e planetária, auto-gestão e ética nas relações sociais e com a natureza (Reigota, 2004, p. 10).

        Se a humanidade de hoje realmente quiser criar condições para que outras gerações tenham acesso a tudo aquilo que temos a nossa disposição hoje, atitudes devem ser adotadas com urgência. Urgência, pois o planeta agoniza, populações são oprimidas, pessoas sofrem e é impossível associar um futuro possível a essa situação. A educação libertária, emancipadora, dialógica, crítica, afetiva, permeada pelo saber ambiental e comprometida com o desenvolvimento de sociedades sustentáveis constitui um dos caminhos para a transformação desta realidade. 



[1] A ciência acredita que o Sol tenha uma “vida útil” limitada. Neste caso, o planeta Terra e os demais planetas do Sistema Solar deixarão de existir quando este prazo se expirar. Aceita-se que este prazo gire em torno de 3,5 bilhões de anos. Antes disso, as alterações nas dimensões solares inviabilizarão a vida no planeta.

[2] O lote genético é representado por todos os genes, fragmentos organizados de DNA que determinam as características típicas de uma espécie. Refere-se ao genoma da espécie.


RICARDO PASIN CAPARROS
SP - SAO BERNARDO DO CAMPO

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