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  Os livros ensinam, o campo confirma. Saídas de campo: uma forma divertida de conhecer a natureza
30/05/2010

JOAO AUGUSTO BAGATINI
RS - NOVA PRATA
O céu se torna nosso teto; o sol, nossas lâmpadas; as árvores e barrancos fazem as vezes das paredes. Bem vindo a uma aula prática de Ciências feita ao ar livre. As saídas de campo permitem ao aluno aprender de uma forma mais gostosa e divertida.

Área(s) de Atuação que o Presente Artigo trata
Biologia
Botânica
Botânica aplicada
Taxonomia/Sistemática vegetal
Ecologia
Ecologia de ecossistemas
Ecologia teórica
Manejo e conservação
Meio ambiente
Gestão ambiental
Educação
Educação ambiental
Educação informal
Zoologia
Zoologia aplicada


Da minha Graduação em Biologia cursada na UNIVATES entre 1996 e 2004, eu me lembro de muitas coisas boas. Lembro da dedicação dos professores em ensinar com paixão a sua matéria, tentando nos convencer de que a sua disciplina era a mais importante (e realmente era!). Lembro também das aulas divertidas em sala, da amizade e companheirismo dos colegas, dos trabalhos extra-classe produzidos com aquela ânsia de aperfeiçoar o currículo, tão típica nos acadêmicos em formação. As MEEPs (Mostra de Ensino, Extensão e Pesquisa) foram minha maior alavanca, em busca de vivência acadêmica e científica. Assim, voluntariamente e em parceria com alguns colegas igualmente dedicados (Marcelo, Dario, Antônio, Cristiano), eu pesquisei assuntos variados como serapilheira (aquelas folhas que se depositam no chão da mata), crescimento de árvores nativas, seqüestro de carbono, enchentes, formação de capoeiras em lavouras abandonadas, identificação de espécies da flora nativa. Tudo para formar uma experiência profissional mínima enquanto estudante.

Porém, o que mais me marcou durante o curso todo, foram as saídas de campo. Geologia, Zoologia, Botânica, sempre tinha algo a se estudar fora da sala de aula, e lugares a conhecer. O céu se tornava nosso teto, as árvores e barrancos, nossas paredes, e o sol, nossas lâmpadas. E sempre tinha o tal do relatório. Valia nota, contava o capricho, mas, principalmente, a capacidade de registrar o que era visto e dito pelos mestres. Com certeza, a formação de biólogos não pode se dar sem a vivência prática de campo. Mas, e se o biólogo vai ser apenas professor? Que importância tem isso tudo para crianças do Ensino Fundamental e Médio? Afinal, a matéria está toda nos livros e internet... Quem pensa assim, não entendeu completamente a missão de um professor das Ciências da Vida. Nem entendeu a cabeça das crianças e adolescentes.

Tive a sorte de conseguir um estágio no Jardim Botânico de Lajeado (JBL), entre 1998 e 2000, e outro no Museu de Ciências Naturais da UNIVATES, no mesmo período. Dos dois estágios, resultaram conhecimentos sólidos nas mais variadas áreas, fiz muitas saídas de campo em pesquisas do Museu, aperfeiçoei meu jeito de lidar com as crianças em campo. Não pensem que é moleza conduzir uma turma de 30 alunos, às vezes mais, para dentro de trilhas ecológicas, conquistar a atenção delas e faze-las sair do local com mais conhecimento do que quando entraram! Este foi um treino que durou cerca de dois anos no JBL, e me deu uma visão privilegiada sobre o valor de atividades práticas em campo.

Realmente, eu acredito que as saídas de campo permitem ao aluno aprender de uma forma mais gostosa e divertida. A aprendizagem se torna significativa, ou seja, daqui a um mês, ou um ano, ou ainda quando adultos, é bem provável que a maioria destes alunos ainda terão na memória alguns conhecimentos obtidos em frente a uma árvore centenária, ou um barranco de estrada, ou ainda diante de um ninho de João-de-barro, ocupado por outra ave intrusa. E isso é o que conta, afinal!

Minha experiência em Saídas de Campo

Durante as disciplinas de preparação para a prática docente, integrantes do currículo acadêmico, eu pude explorar esta ferramenta didática por duas vezes, sempre sob a orientação da Professora Elaine Moriggi. Vou agora relatá-las rapidamente.

Uma delas foi durante a disciplina de Laboratório de Ensino III, em 2001, durante um trabalho com alunos da 6ª série da Escola Municipal junto à FATES (hoje extinta, funcionava no Prédio 3), com o tema “Seres vivos – formas de convívio entre as espécies”. Esta experiência foi feita em conjunto com o acadêmico Antônio da Silveira, que tinha experiência docente por já ter atuado como professor. Como preparação para a saída de campo, verificamos em sala de aula os conhecimentos prévios dos alunos a respeito do tema, por meio de exibição de fotografias ampliadas de animais e plantas (20 x 30 cm), um trabalho de avaliação envolvendo ilustração, anotações e debate e documentários da série “Desafios da Vida”. Durante o estudo de campo, os alunos foram divididos em dois grupos e ouviram explicações sobre nove pontos didáticos existentes nos arredores da escola, na região atrás do atual Prédio 9 e biblioteca. Abordamos aspectos como árvores exóticas, nativas, nascente de água, lixo clandestino, plantas parasitas, exúvia de cigarra, raízes estrangulantes e decomposição da madeira na mata. Cada aluno recebeu um roteiro escrito para anotações e desenhos; este trabalho foi avaliado ao final. Percebemos que a saída de campo foi algo motivador da aprendizagem, pois as crianças demonstraram satisfação durante e ao final da atividade.  Os registros feitos por elas demonstraram que o trabalho foi adequado e estimulante, e permitiu compreender na prática o que é ensinado na teoria.

A segunda experiência ocorreu durante o Estágio Curricular de Ensino de Ciências, de maio a junho de 2003, realizado no Colégio Evangélico Alberto Torres (CEAT). Neste estágio, conduzi 16 horas de atividades docentes em sala de aula. O assunto abordado foi o estudo dos vegetais vinculado à arborização urbana, na turma da 5ª série "A". Utilizei o enfoque social, ecológico e conservacionista na proposta de estágio, ressaltando as diversas facetas da arborização urbana, que tem influência na vida das pessoas. Entre elas, está o benefício ambiental que a composição arbórea traz ao meio urbano, definidos pela amortização de ruídos, fixação de poeiras, conforto térmico, visual e psicológico, atenuação dos níveis de poluição atmosférica, entre outros. Qual é a criança que não se admira, na sua pureza infantil, com uma bela árvore florida ou frutificada? Qual é a criança que não disputa os espaços de sombra originados pela copa densa de uma árvore, principalmente nos dias quentes de verão? Sem dúvida, o elemento vegetal urbano faz parte do cotidiano delas, mesmo que elas não percebam. Para viabilizar essa compreensão pelos alunos, realizei duas saídas de campo: uma no pátio da escola, muito amplo e repleto de árvores, e a outra no Jardim Botânico de Lajeado. Obviamente, com uso de roteiro escrito para anotações e desenhos. Dentro das atividades práticas, procurei ensinar aos alunos a diferença entre plantas nativas e exóticas, os nomes de diversas árvores comuns na escola e na arborização da cidade, técnicas de coleta de material vegetal para estudos em laboratório, utilizando a chamada prensa botânica, problemas com árvores grandes sob fiação elétrica e como evita-los, poda drástica em árvores, respeito aos seres vivos, microclima dentro da floresta, etc. Como resultado, os trabalhos de avaliação foram muito bem preenchidos pelos alunos, com registros importantes e marcantes. As saídas de campo agradaram a turma de forma generalizada, confirmando minhas hipóteses. Após o estágio no CEAT, fui convidado para conduzir uma Oficina sobre Arborização Urbana em setembro do mesmo ano, com os alunos da 7ª série, o que significou para mim um reconhecimento ao trabalho efetuado com as saídas de campo. Este trabalho envolveu a tradicional caminhada pelos arredores da escola, onde muitas situações da arborização puderam ser confirmadas pelos jovens.

Lembro, ainda, que fui convidado numa ocasião pela Professora Elaine a conduzir um grupo de cerca de 20 professoras em uma saída de campo no Jardim Botânico de Lajeado. Elas faziam parte de um projeto de pesquisa em educação da UNIVATES, o LEC (Laboratório de Ensino de Ciências). Naquela ocasião, apresentei os pontos temáticos que eu empregava com alunos visitantes do JBL, discutindo a importância de abordar cada tema do trajeto. O objetivo foi estimular as professoras a passarem a fazer suas próprias saídas de campo em suas escolas, difundindo esta ferramenta facilitadora da aprendizagem.

Hoje em dia, continuo empregando as saídas de campo com meus alunos em Nova Prata, mas não só com eles. Seguidamente, sou convidado pelas escolas da cidade a conduzir alunos no Parque de Águas Termais Caldas de Prata, onde há um ambiente natural propício a saídas de campo, com trilhas, a Cascata da Usina, plantas identificadas com placas, muita mata nativa, rastros de animais, e outros pontos interessantes.

Interdisciplinaridade

Esta palavra comprida e difícil de pronunciar significa que as diferentes áreas do conhecimento devem se cruzar durante os estudos. Por exemplo, é melhor estudar a água lembrando-se das algas, peixes, poluição, bacia hidrográfica. E isso fica muito mais fácil e claro para os alunos em saídas de campo, onde eles se inserem no ecossistema como observadores, mas também como atores, percebendo que seus atos cotidianos repercutem na qualidade do meio ambiente. Estudos interdisciplinares traduzem de forma concreta os processos dinâmicos da natureza.

Importância das atividades ao ar livre no ensino de Ciências

Reconheço a importância da saída a campo no processo de ensino-aprendizagem, desde que sejam realizadas atividades significativas e devidamente orientadas e planejadas. Os alunos devem conseguir perceber a importância da conservação da flora para assegurar as condições de sobrevivência dos animais e seres humanos e melhorar a qualidade de vida; e se sensibilizarem sobre a importância e a necessidade do respeito aos seres vivos em geral.

Penso que saídas a campo não podem ser conduzidas livremente, pois se perde o foco do trabalho, mas, por outro lado, deve se evitar virar escravo da avaliação. Os alunos prestam mais atenção no professor se ele conta histórias sobre os animais do lugar, sobre a água do arroio, sobre as árvores que crescem lá, e isso se torna mais significativo à criança, fixando-se em sua memória por muito tempo.

A história da Capororoca e do passarinho

Eu sempre conto a história da capororoca e do passarinho durante as saídas de campo. De forma bem resumida, a história é a seguinte: a capororoca é uma árvore que produz muitos frutinhos que atraem passarinhos, mas suas sementes só germinam se sofrerem a ação dos ácidos gástricos da barriga das aves. Assim, todas as árvores de capororoca nasceram por causa da importante interação desta espécie com as aves. De um lado, a planta fornece alimento, e de outro, o animal dissemina as sementes, atingindo áreas maiores de semeadura. As crianças riem quando eu falo da “semente no cocô”, mas esse é o meu objetivo, tornar o momento marcante e agradável. Uma pura e simples aula de Ecologia.

Recomendações para saídas de campo seguras e eficazes.

O aluno deve ser orientado com antecedência sobre como se trajar, como se preparar para a atividade ao ar livre, bem como sua conduta em campo. Sugiro os seguintes cuidados e orientações:

Aos professores:

·         Procurar ter professores auxiliares, para melhor controle sobre os alunos.

·         Visitar o local de estudo com antecedência, definindo o roteiro a ser percorrido com a turma depois. Manter o trajeto durante a saída de campo, parando só nos pontos pré-estabelecidos.

·         O percurso total não deve exceder 5 km, contando ida e volta. O objetivo não é a caminhada, mas sim a aprendizagem.

·         Programe uma duração de no mínimo uma hora e trinta minutos de atividade em campo, fora o deslocamento até o local. 

·         Em uma saída de uma hora e meia, não elencar mais que 10 pontos temáticos, pois a dinâmica em campo é sempre lenta e corre-se o risco de não abordar nem metade deles.

·         Preparar-se para perguntas inesperadas sobre o que for visto em campo; forme uma boa base de conhecimento. Se possível, convide algum mateiro morador da região para acompanhar a turma, eles sempre tem muito conhecimento (saber local) para contribuir com a aula.

·         reparar-se para perguntas sobre o que for visto em campo, estudando a matdo Cuidado em ladeiras, locais lisos e úmidos: tombos são inevitáveis nessas condições. Evitar trajetos que passem por locais perigosos. Crianças pequenas são às vezes desajeitadas em campo.

·         Cuidado com animais peçonhentos, como cobras, aranhas, escorpiões. Abelhas atacam quando há algazarra ou vibrações fortes próximo às colméias. Informar-se com os proprietários sobre a existência de apiários ou gado bravo próximo ou dentro dos locais visitados.

·         Use caminhos pré-estabelecidos, como trilhas, estradas, ou campo aberto. Atravessar matos fechados ou capoeiras é perigo com grupos destreinados.

·         Tenha junto um estojo de primeiros socorros, com pomada para picada de insetos, curativos, pinça para espinhos.

·         Não esqueça a câmera fotográfica para registros da atividade.

Aos alunos:

·         Não coletar plantas ou animais sem ordem do professor;

·         Não danificar ou remover ninhos de aves e esconderijos de animais;

·         Não ingerir frutos desconhecidos, se a visita for feita em ambiente natural, deixar as frutas comestíveis para a fauna local.

·         Usar calçado confortável e apropriado, nada de chinelo, rasteirinha, sapato social. A sola deve ser antiderrapante.

·         Usar prancheta para anotações, filtro solar, repelente de inseto (pessoas alérgicas), boné ou chapéu.

·         Levar uma garrafinha de água, principalmente no verão.

·         Não deixar marcas nos locais visitados, como lixo, galhos quebrados, restos de comida.

·         Obedecer sempre as ordens dos professores, elas servem para evitar acidentes e manter a ordem.


JOAO AUGUSTO BAGATINI
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