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  ASPECTOS COMPORTAMENTAIS DE Lontra longicaudis (OLFERS, 1818) (Carnivora: Mustelidae) EM CATIVEIRO DO INSTITUTO MAMÍFEROS AQU
18/03/2014

JÚLIA VEIGA SANTANA
BA - SALVADOR
: O presente estudo foi realizado no instituto Mamíferos Aquáticos – IMA, durante o mês de outubro de 2011, com o objetivo de comparar o padrão comportamental de duas Lontras longicaudis em cativeiro e determinar a categoria comportamental mais repre

Área(s) de Atuação que o Presente Artigo trata
Biologia
Meio Ambiente e Biodiversidade


INTRODUÇÃO O estudo do comportamento animal é uma ponte entre os aspectos moleculares e fisiológicos da biologia e da ecologia. O comportamento é a ligação entre organismos e o ambiente, e entre o sistema nervoso e o ecossistema. Este tem um papel fundamental nas adaptações das funções biológicas. (SNOWDON, 1999). O autor supracitado relata que trabalhos recentes sobre o comportamento animal têm demonstrado a influência do comportamento e da organização social sobre os processos fisiológicos e celulares. Variações no ambiente social podem inibir o estimular ovulações, produzir sincronia menstrual ou induzir abortos, como também tem efeito direto sobre o funcionamento do sistema imunológico. O comportamento da maioria dos animais é determinado, em grande parte, pela hereditariedade, com a aprendizagem desempenhando um papel relativamente secundário. (PURVES et al 2002). Segundo Purves et al (2002), a maioria das espécies animais pode ser identificada por seu comportamento. O comportamento é altamente visível e nos mostra o que um animal faz: como ele adquire alimentos, como evita os perigos do ambiente e como se reproduz. O comportamento é altamente adaptativo e, assim, não é de surpreender que muitos comportamentos sejam moldados pela seleção e sejam altamente específicos. Por outro lado, a flexibilidade do comportamento pode ser de extremo valor para um animal que tenha que lidar com condições variáveis e situações complexas, como nas interações sociais. Por conseguinte, o comportamento é suscetível à modificação pela aprendizagem em graus variados. Ainda de acordo com este autor, a maioria dos comportamentos envolve interações complexas de mecanismos anatômicos e fisiológicos herdados e a habilidade de alteração do comportamento por meio da aprendizagem. A lontra neotropical, Lontra longicaudis (Olfers, 1818), são mamíferos aquáticos pertencentes à Ordem Carnivora, Família Mustelidae e Subfamília Lutrinae sendo um animal de porte médio, medindo cerca de 1m de comprimento total e pesando de 5 a 12kg (FONSECA, 1994 apud PERES, 2006). A espécie está amplamente distribuída entre o México e o Uruguai, podendo ser encontrada em países como Argentina e praticamente todo o território brasileiro (EISEMBERG e REDFORD, 1999 apud. VOLPI et al., 2011). No Brasil, em função de apresentar adaptações morfológicas, fisiológicas e comportamentais para vida em a hábitats aquáticos, não ocorre nas porções mais áridas da região nordeste (FONSECA et al., 1994). As lontras são animais ativos, principalmente durante o dia e no crepúsculo, podendo apresentar atividade noturna. Não têm hábito de formar grupos sendo vistas aos casais em algumas áreas, ou solitárias (PERES, 2006) E ainda segundo este autor a lontra neotropical, representa grande importância para o ecossistema aquático, pois está situada no ponto mais alto da pirâmide alimentar sendo, portanto, um indicador da qualidade biológica deste ambiente. Lontras longicaudis é uma espécie ameaçada de extinção sob a categoria vulnerável (A 1c + 2c) (MIKICH e BERNILS, 2004, apud QUADROS, 2009). Segundo Snowdon (1999), a conservação de espécies ameaçadas de extinção requer informações sobre o comportamento natural dessas espécies (padrões migratórios, tamanho do território, interações com outros grupos, demandas de forrageio, comportamento reprodutivo, comunicação etc) para criar reservas e medidas efetivas de proteção. Neste sentido a lontra pode possuir hábitos generalistas, alimentando-se de vários itens alimentares, mas priorizando peixes e crustáceos como também selecionar algumas espécies de sua preferência, conferindo assim, uma maior seletividade de alimentos. (UCHÔA et. al. 2004). Há uma carência de informações sobre diversos aspectos de sua biologia, ecologia e comportamento, sendo que a maioria dos trabalhos realizados sobre a espécie é referente ao hábito alimentar e ao uso de abrigos (COLARES e WALDEMARIN, 2000; KASPER et al.,2004). O estudo do Comportamento Animal é uma ciência multidisciplinar envolvendo técnicas de outras sub-disciplinas da biologia, que atualmente, tem desenvolvido tantas áreas distintas, com uma enorme variação em terminologias específicas (DEL-CLARO, 2002). É ainda um importante campo científico por ter contribuições para outras disciplinas com aplicações para o estudo do comportamento humano, para as neurociências, para o manejo do meio ambiente e de recursos naturais, para o estudo do bem-estar animal e para a educação de futuras gerações de cientistas (SNOWDON, 1999). Este trabalho tem o objetivo de comparar os aspectos comportamentais entre duas lontras em cativeiro e determinar a categoria e subcategorias de ocorrências comportamentais mais freqüentes dentre os mesmos. MATERIAL E MÉTODOS O trabalho foi realizado no Instituto Mamíferos Aquático (IMA) no estado da Bahia, selecionado devido a existência de Lontras em cativeiro. O Instituto Mamífero Aquáticos é uma organização não-governamental sem fins lucrativos fundada em 1995, na cidade de Salvador, Bahia. O objetivo do instituto é a pesquisa e a conservação dos mamíferos aquáticos e dos ecossistemas costeiros no litoral dos estados da Bahia e Sergipe. Os espécimes de lontras utilizados neste estudo foram dois machos, Chicó e Bento com idade de sete e dez anos respectivamente. O mais jovem foi coletado em agosto de 2004, nas margens do Rio Almada, Ilhéus, sul da Bahia (14°40’001’’S e 39°04’248’’W), após uma enchente na região, e o mais velho foi encontrado em Santa Catarina, onde teve sua mãe morta por armadilha de pesca. O recinto possui uma área total de 40m² murada com altura de 4m, áreas de sombra e luz, cambiamento e dois tanques com uma pequena queda d’água com pedras empilhadas e frontalmente existia um vidro destinado a observação para visitantes. O espaço conta também com dois troncos ocos que serviam como tocas, solo com vegetação e palmeiras (Figura 1e 2). Figura 1 e 2-Fotos do recinto dos indivíduos da espécie Lontra longicaudis (Olfers, 1818). Antes de começarmos a listar as ocorrências, foi feito uma calibragem entre os observadores com duração de 2 horas, a fim de se eleger um consenso sobre os atos comportamentais dos espécimes. As observações foram analisadas através do método de amostragem “ad libitum” indivíduo focal a cada 3 minutos, durante o mês de outubro de 2011, duas vezes por semana das 15: 03 h às 17: 30 h, com intervalo de 30 minutos. Foram montados dois pontos fixos de observação (Figura e 3 e 4), sendo possível o melhor ângulo de visualização do recinto. Figura 3 e 4- Pontos de observação do recinto das espécies de Lontra longicaudis (Olfers, 1818). A identificação dos indivíduos foi feita através de suas características físicas e hábitos comportamentais que os diferenciavam. Bento era maior, e permanecia mais tempo em descanso, enquanto Chicó era menor e mais ativo. As ocorrências comportamentais foram transcritas em fichas específicas (Figura 5), durante sessões de observação de quatro horas semanais, totalizando 9 horas de observação. Esses dados foram analisados e quantificados a fim de elaborar um etograma. Figura 5- Fichas específicas para atos comportamentais observados a cada 3 minutos para as espécies de Lontra longicaudis (Olfers 1818) do Instituto Mamíferos Aquáticos - IMA RESULTADOS E DISCUSSÃO Foram observadas e descritas oito categorias de comportamentos subdivididos em 16 subcategorias. O comportamento deslocamento compreendeu nadar emerso com o focinho fora d água, nadar submerso, mergulhar, andar ou correr pelo recinto e o comportamento descanso era descrito quando os animais estavam descansando na toca ou no tronco das árvores (Tabela 1). Tabela 1. Etograma de comportamentos exibidos por indivíduos de Lontras longicaudis (Olfers, 1818) no Instituto Mamíferos Aquáticos – IMA, Salvador -Ba Comportamento Descrição 1. Deslocamento Nadar emerso com o focinho fora d água Nadar submerso, Mergulhar, Andar ou correr pelo recinto 2. Territorial Farejar o chão, Marcar com a região peritoneal do corpo. Cavar 3. Alimentação Horário em que os animais recebem alimentação 4. Secagem Ato de secar os pêlos movimentando o corpo 5. Descanso Quando as lontras estão descansando na toca ou troco das árvores 6. Brincar Quando as lontras então brincando um com o outro, com o próprio rabo ou com a bola de gelo 7. Higiene Quando as lontras estão defecando, urinando, coçando-se ou mordendo-se. 8. Fora de Observação Quando estão fora do ângulo de visão dos observadores A categoria fora de observação foi assinalada quando os indivíduos se escondiam em um buraco abaixo da piscina principal do recinto ou quando estavam atrás das tocas. A categoria alimentação estava condicionada aos horários do instituto, assim como a dieta, sendo basicamente de peixes, é importante ressaltar que o procedimento de alimentação era feito sempre através do mesmo ponto de acesso. A categoria brincar era descrito quando os animais brincavam um com o outro ou com a bola de gelo que recebiam junto com a alimentação. A categoria que se mostrou mais expressiva para ambas as espécimes foi o deslocamento (83 e 70 para Bento e Chicó respectivamente), em seguida a categoria descanso que mostrou maior frequência para Bento (n = 21), e menor frequência para Chicó (n = 2) (Figura 6), provavelmente por ser a espécime mais jovem, demonstrando maior atividade. As categorias menos expressivas foram território (n= 10) e (n= 2) e higiene com freqüência de (n= 2) e (n= 6) (figura 6). Figura 06- Frequência dos atos comportamentais observados em indivíduos de Lontras longicaudis (Olfers, 1988) no Instituto Mamíferos Aquáticos – IMA, Salvador -Ba Dentro da categoria deslocamento a subcategoria nadar submerso (n= 60) e (n= 55) para Bento e Chicó respectivamente tiveram a maior freqüência, assim como dentro da categoria brincando a sub categoria brincando com o outro na água (n= 14) que incluem interações diretas entre os indivíduos (Figura 7), foi a segunda subcategoria mais freqüente. As subcategorias menos freqüentes foram brincando com o gelo (n= 1), defecando (n= 1) e cavando (n= 1) para Bento. Figura 07- Frequências dos comportamentos das subcategorias dos espécimes de Lontras longicaudis (Olfers, 1988) observados no Instituto Mamíferos Aquáticos – IMA, Salvador -Ba Animais em cativeiro costumam desenvolver comportamentos que não fazem parte de seu repertório natural, ou podem exibir uma freqüência de determinado comportamento acima àquela considerada normal. Para alguns animas a simples exposição aos visitantes já apresentam um fator de stress (DRAZILOVÁ, 2006). Segundo este mesmo autor, movimentos do todo ou parte do corpo do animal que são repetidas regularmente e que não servem a nenhuma função aparente podem ser definidos como comportamento estereotipado, sendo associados com o confinamento em um ambiente não-estimulante, e de acordo com os dados observados foram revelados que estereotipias impostas pelo cativeiro pareceram afetar mais o animal mais jovem, (Chicó), que durante as observações permaneceu a maior parte do tempo na piscina de vidro (Figura 8), na qual é exposta aos visitantes, que excita a curiosidade do espécime, que se aproximava sistematicamente do vidro de observação do recinto sempre nadando repetidamente de um lado para o outro, na subcategoria emerso, com freqüência de (n= 44) (Figura 7), sem interagir com o enriquecimento do recinto, o que provavelmente é um fator que tem causado stress ao animal. Bento, o mais velho, quando comparado a Chicó na mesma subcategoria apresenta uma frequência de (n= 6) (Figura 7), provavelmente devido ao fato do mesmo não freqüentar a piscina de vidro que oferece exposição ao público, estando sempre nadando na piscina interna (Figura 8). Na subcategoria andando/correndo Bento apresentou maior mobilidade no recinto (n= 11), enquanto Chicó apresentou menor frequência (n= 2). Figura 8- Atos comportamentais das espécies de Lontras longicaudes (Olfers, 1818) no recinto do Instituto Mamíferos Aquáticos – IMA, Salvador – Ba; A- Nadando submerso, B- Nadando emerso, C- Marcando com o corpo e D- Cavando. CONSIDERAÇÕES FINAIS O enriquecimento presente no recinto possibilita uma maior variedade de comportamentos, como atividades territoriais e de marcação, apesar de terem sido pouco freqüentes. Entretanto, Chicó apresenta a subcategoria nadando emerso mais expressiva, este ato comportamental ocorre sempre na piscina de vidro que fica exposta aos visitantes. Tomando como base o padrão comportamental da espécie, e os efeitos de uma super exposição, das várias sugestões possíveis, duas se sobressaem e suportam a quebra de regularida e monotonia do manejo em cativeiro. O oferecimento de comida sempre através do mesmo ponto ocasiona uma regularidade para os animais, assim como a exposição dos mesmos aos visitantes através da piscina de vidro. Mitigação ou supressão de estereotipias que afetam negativamente o bem estar dos animais poderá ocorrer com o desenvolvimento de um programa sistemático de enriquecimento ambiental associado à alimentação. O animal mais velho (Bento) não pareceu apresentar estereotipias, a sua categoria mais expressiva foi a de descanso. REFERÊNCIAS COLARES, E. P.; WALDEMARIN, H. F. Feeding of the neotropical river otter (Lontra longicaudis) in the coastal region of the Rio Grande do Sul State, Southern Brazil. IUCN Otter Specialist Group Bull, 2000, 17(1), p. 6-13. Disponível em: < http://www.mamiferosaquaticos.org/>. Acesso em: 04 Novembro 2011 DRAZILOVÁ, D. W. (2006). Zoo animal Welfare. Journal of Agricultural and Environmental Ethics, 9, 27-36. FONSECA, G. A. B. ; RYLANDS, A. B. ;COSTA, C. M. R.; MACHADO, R. B. ; LEITE, Y. L. R. Livro Vermelho dos Mamíferos Brasileiros Ameaçados de Extinção. Fundação Biodiversitas. Belo Horizonte. 1994. 459 p. KASPER, C. B.; FELDENS; M. J.,SALVI, J.; Grillo, H. C. Z. Estudo preliminar sobre a ecologia de Lontra longicaudis (Olfers) (Carnivora, Mustelidae) no Vale do Taquari, sul do Brasil. Revista Brasileira de Zoologia, 2004, 21(1), p.65-72. HICKMAN, Cleveland P. Jr. et. al. Princípios Integrados de Zoologia, 11ª edição, editora Guanabara Koogan S. A. Rio de Janeiro – RJ. 2004. p. 595. DEL-CLARO, Kleber. Comportamento Animal: Uma introdução a ecologia comportamental. MG: Conceito, 2002 PEREIRA, R. L. A.; OLIVEIRA, M. A. B. Etograma do Eira Barbara (Carnivora:Mustelidae) em cativeiro. Revista de Etologia 2010, Vol.9, N°1, 45-57. PERES, Lísia Cristina Naud; MARTINEZ, Jaime. Aspectos sobre ocorrência e ecologia de Lontra longicaudis (olfers, 1818) no Rio Espraiado, localizado no Município de Soledade, RS - Universidade de Passo Fundo, 2006. PURVES, W. K.; SADAVA, D.; ORIANS, G. H.; HELLER, H. C. Vida - A Ciência da Biologia, 6ª edição, Porto Alegre, editora Artmed, 2002. p. 925-926. QUADROS, J. In: Planos de Conservação para espécies de mamíferos ameaçados. IAP/Projeto Paraná Biodiversidade, 2009. SNOWDON,C. T. 1999. O significado da pesquisa em Comportamento Animal. Estud. psicol. (Natal) vol.4 no.2 Natal July/Dec. UCHÔA, T.; VIDOLIN, J. P.; FERNANDES, T. M.; VELASTIN, G. O.; MANGINI, P. G. – Aspectos ecológicos e sanitários da lontra (Lontra longicaudis OLFERS, 1818) na Reserva Natural Salto Morato, Guaraqueçaba, Paraná, Brasil, Cad. Biodivers. V. 4, 2,dez. 2004. VOLPI TA, Luz TFB, Nunes SF (2011) Ecologia alimentar da lontra, Lontra longicaudis (Olfers,1818) na Estação Biológica de Santa Lúcia, Município de Santa Teresa, Espírito Santo. Natureza on line 9 (1): 1-9

JÚLIA VEIGA SANTANA
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