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  A PROFISSÃO DOCENTE: ASPECTOS EPISTEMOLÓGICOS
27/02/2013

MAYCON RAUL HIDALGO
PR - MARINGA
Frente as concepções de conhecimento no processo de ensino e aprendizagem e os constantes conflitos na identidade do professor no País, o presente artigo visa discutir pontos a serem analisados ao ponto de vista do professor sob a própria pratica.

Área(s) de Atuação que o Presente Artigo trata
Biologia
Meio Ambiente e Biodiversidade
Treinamento e Ensino na Área de Meio Ambiente e Biodiversidade
Saúde
Treinamento e Ensino na Área de Saúde


A necessidade de se manter vivo em um ambiente inóspito proporcionou a humanidade uma de suas principais características evolutivas, a capacidade de se compreender em um determinado tempo e espaço, e em contrapartida se questionar sobre os eventos que interferem em seu modo de sobrevivência, ou seja, a busca pela essência do ser, questionada já pelos gregos. Dessa forma pode-se dizer que o ser humano em meio a esta busca por sua essência é produtor do conhecimento ( ou Ciência, do latim Scientia = Conhecimento), este descrito por Luckesi (1990) como uma abstração da realidade em um processo de interiorização de forma que o objeto externo adquire uma expressividade passível de ser traduzida e perpetualizada como uma determinada realidade. Podemos dessa forma compreender a necessidade que o ser humano tem em ensinar aos seus descendentes sua ciência, promovendo assim uma globalização de determinada verdade ( realidade). Essa necessidade porém se exaltou em meados do século XVII aos embalos da revolução científica ocasionada Por Galileu Galilei entre outro filósofos que promoveram novas preocupações, possibilidades e limites ao conhecimento. No entanto a necessidade de ensinar ainda permanecera presente, e aproximadamente um século mais tarde surgira à necessidade de ensinar a ensinar. A este ponto o ato de ensinar começa a ser questionado tendo como embasamento questões além das filosóficas, onde o conhecimento era algo passível de ser repassado ao próximo, encontra-se assim em trabalhos de Piaget, Vigotsky entre outros, aspectos interiores derivados de maturidade cognitiva que deveriam ser levados em consideração ao se exercer a pratica do ensino. Tais estudos tem dessa forma um impacto gradual nas escolas em geral, com seus aspectos construtivistas de compreender o ensino buscam uma aprendizagem mais significativa ao ponto de vista do aluno. Neste contexto vale-se apanhar uma passagem de Paulo Freire que elucida muito bem tal conceito: É preciso, sobretudo, e aí já vai um destes saberes indispensáveis, que o formando, desde o principio mesmo de sua experiência formadora, assumindo-se com sujeito também da produção do saber, se convença definitivamente de que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção. (1997, p.13) Analisando dessa forma o conceito idealizado do professor, é tido não como um transmissor do conhecimento, mas como um mediador do processo de construção deste, levando em consideração não apenas o conteúdo, mas o aluno e seu processo único de aprendizagem, para tanto houve uma introdução de disciplinas didáticas aos cursos de licenciatura com o intuito de promover essa reflexão no futuro professor do ensino básico fundamental e médio, tais disciplinas eram (são) formadas por teorias do pensamento cognitivo de aprendizagem, e didáticas pedagógicas. Sob uma ótica generalista os problemas acerca do processo de ensino estariam sanados, comprometendo assim os professores da educação básica, fundamental e média a formalizarem uma educação pautada nos princípios de uma aprendizagem cognitiva. Contudo os mesmos princípios não estariam a ser empreendidos na formação do professor universitário sob a alegação de que, no caso, os alunos estariam amadurecidos e comprometidos com a própria aprendizagem, dispensando assim os princípios de uma aprendizagem significativa e reflexiva, e sendo necessário apenas o domínio da disciplina a ser lecionada. A partir deste raciocínio podemos identificar facilmente na concepção universitária ao que Paulo Freire chamou ensino “bancário” onde o aluno é um receptor passivo do conhecimento, e ainda pior, tal concepção levanta a ideia de que o conhecimento é algo que pode ser repassado e adquirido, no entanto vale aqui (re)lembrar a concepção descrita por Bachelard em que defende a ideia de que o Conhecimento não é algo que pode ser repassado ou encontrado, ele precisa necessariamente ser construído (Bachelard, 1996). As criticas de Freire ao sistema “bancário” de ensino e as concepções de conhecimento de Bachelard, fazem jus a um compilado de ideias que defendem o processo didático e metodológico do ensinar a ensinar considerando o aspecto cognitivo do aluno como parte do processo em todas os níveis educacionais, como nas frases Freire “Não há docência sem discência.”(Freire, 1997, p. 23). De acordo com Claudio Silva (2012), o aumento da demanda de universitários aliados a constantes especificações dos cursos oferecidos e o decaimento na qualidade do ensino, foram fatores que influenciaram diretamente na retomada sobre os assuntos de didática para o ensino superior, neste contexto surge a necessidade de uma aproximação entre o professor universitário e as didáticas de ensino. O novo conceito de aula universitária se expandiram além do simples conhecimento especifico de suas disciplinas, forçando os professores a buscarem novas metodologias e técnicas que auxiliem no processo de ensino e aprendizagem. Contudo apesar do aumento na demanda por professores com aperfeiçoamento em áreas didáticas, houve uma certa resignação destes em relação a estes cursos de aperfeiçoamento, em parte pelo descaso estatuário com a profissão docente. É certa a desmotivação de vários professores universitários frente as concepções alavancadas pelo plano educacional nacional, levando assim a uma total falta de reconhecimento profissional, ou seja, o professor se minoriza frente as demais profissões, concomitantemente a profissão docente se desvaloriza frente a sociedade. Para Freire (1997) um dos aspectos essenciais para a construção do profissional reflexivo é sem dúvida a valorização do oficio, contudo tal valorização precisa necessariamente partir em primeiro plano, do profissional em si, para que a partir deste auto reconhecimento possa lutar por seus direitos maiores. No contexto educacional é necessário em primeiro estágio o reconhecimento como docente, e como docente, participante e ativo na construção social em que se aplica o ato de ensinar. Somente a partir do processo reflexivo sobre a própria pratica é possível reelaborar seu oficio na busca de uma sociedade mais justa, logo, tendo seu oficio reconhecido frente às concepções sociais do meio, neste contexto Freire diz: A questão da identidade cultural, de que fazem parte a dimensão individual e a de classe dos educandos cujo respeito é absolutamente fundamental na prática educativa progressista, é problema que não pode ser desprezado. Tem que ver diretamente com a assunção de nos por nós mesmos. É isso que o puro treinamento do professor não faz, perdendo-se e perdendo-o na estreita e pragmática visão do processo (1997, p.19). Ainda de acordo com Freire, o professor (em suas amplas atribuições, do ensino básico ao superior) tem sido treinado a um processo de ensinagem pragmática, elitista egocêntrica, aspectos estes que devem estar necessariamente alheio as práticas docentes condizentes as condições cognitivas relatadas por Piaget, Vigotsky e outros já mencionados acima. O ensino superior no que diz respeito à formação docente em especial enfrentou (e enfrenta) de forma árdua os conflitos oriundos dos processos de interiorização dessas metodologias pragmáticas, em contraposição aos conceitos de professor reflexivo e vivente da pratica docente focada na aprendizagem do aluno. Frente aos conflitos inerentes da evolução do ensino é possível classificar o ensino em uma característica principal, sendo ela o Relacionamento Humano, onde dentro deste conceito é possível ramificar todos as capacidades e exigências relatadas por Freire (1997), inerentes necessárias ao professor, seja ele do ensino básico, fundamental, médio, superior ou pós-superior. Silva, C. (2012) elaborou dessa forma requisitos pessoais desejáveis em professores universitários (contudo tais requisitos poderiam ser estendidos sem problemas as outras modalidades de ensino) sendo elas: Resistência à fadiga; Capacidade funcional do sistema respiratório; Clareza vocal; Acuidade visual; Acuidade auditiva; Estabilidade emocional; Versatilidade; Iniciativa; Autoconfiança; Disciplina; Paciência; Cooperação; Estabilidade de ritmo; Atenção difusa; Inteligência abstrata; Inteligência verbal; Memória; Observação; Raciocínio lógico; Rapidez de raciocínio; Precisão de raciocínio; Imaginação; Discriminação; Associação; Orientação; Coordenação; crítica; preparo especializado na matéria; cultura geral; conhecimentos e habilidades pedagógicas. Apesar da grande quantidade de requisitos listados por Silva, não podemos compreender o ato de ensinar como uma profissão estritamente vocacional, como pode em algum momento ser compreendido, mas sim como uma atividade passível de ser aprendido porem inacabada, como nas próprias palavras de Freire “Ensinar exige consciência do inacabamento” (1997, p. 21). O ato de educar dessa forma exige além dos domínios práticos do conteúdo a ser ensinado, mas também uma constante reflexão sobre a própria pratica, a necessidade de frisar tantas vezes este aspecto se dá justamente pelo continuo conflito existente entre a pratica pragmática e a reflexiva, estando este diretamente ligado ao processo de relacionamento humano fundamental a profissão de educador. O processo de relacionamento humano referente a profissão docente esta estreitamente ligada ao respeito à autonomia, seja da criança, do adolescente ou do adulto, nas palavras de Freire : O professor que desrespeita a curiosidade do educando, o seu gosto estético, a sua inquietude, a sua linguagem, mais precisamente, a sua sintaxe e a sua prosódia; o professor que ironiza o aluno, que minimiza, que manda que “ele se ponha em seu lugar” ao mais tênue sinal de sua rebeldia legitima, tanto quanto o professor que se exige do cumprimento de seu dever de ensinar, de estar respeitosamente presente à experiência formadora do educando, transgride os princípios fundamentalmente éticos de nossa existência (1997,p. 25). Podemos dizer assim que o Professor tolhe de seus alunos às características explicitadas por Freire esta desprezando a razão de SER do ser humano, uma vez que a capacidade de se compreender como parte do processo e questionar sobre os assuntos que lhe interferem no modo de vida é a base crucial para a construção de um conhecimento sólido (como já dito no inicio deste texto), logo estes devem ser também a base para um processo de ensino e aprendizagem igualmente sólidos. Não sejamos hipócritas em pensarmos ser os donos da verdade, ou que a verdade é imutável, e consequentemente tentar “enfiar goela abaixo” uma concepção de verdade heterônoma as capacidade de compreensão (cognitivas, culturais ou ideológicas) de nossos alunos, Paulo Freire diz muito sabiamente que para ensinar é preciso bom senso, e que o exercício do bom senso se faz no corpo da curiosidade (1997). Que possamos então sair de nossa zona de conforto e nos assumirmos como profissionais inacabados, porém atuantes na construção de uma sociedade reflexiva. REFERENCIAS FREIRE, P. PEDAGOGIA DA AUTONOMIA: Saberes necessários a pratica docente. São Paulo, Brasil. Paz e Terra, 1997. SILVA, C. RELACIONAMENTO HUMANO E APRENDIZAGEM. Maringá. Instituto Paranaense de Ensino. 2012. Bachelard, G. A FORMAÇÃO DO ESPIRÍTO CIENTIFICO: Contribuições para uma psicanálise do conhecimento. 1ed. Rio de janeiro: Contraponto, 1996.

MAYCON RAUL HIDALGO
PR - MARINGA

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