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  BIOTERRORISMO: EMPREGO DO Bacillus anthracis COMO ARMA BIOLÓGICA
10/01/2018
Bioterrorismo compreende todo e qualquer ato que envolva disseminação intencional e deliberada de um agente biológico, no intuito de causar pânico, medo e/ou instabilidade econômico, ambiental e na saúde pública.

Área(s) de Atuação que o Presente Artigo trata
Biologia
Saúde
Perícia e Biologia Forense


 

CIAP EDUCACIONAL

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

BIOTERRORISMO: EMPREGO DO Bacillus anthracis COMO ARMA BIOLÓGICA

 

 

 

 

ERÍNEA RAQUEL PEREIRA ALMEIDA

 

 

 
Monografia apresentada ao Programa de Especialização em Perícia Criminal e Ciências Forenses do CIAP EDUCACIONAL, como parte dos requisitos para obtenção do titulo de Especialista.
 
 
 

ORIENTADOR: Prof. Dr. Rafael Ayres Romanholo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cacoal-RO

2017



 

 

 

                   A todos os profissionais forenses que dedicam atenção, conhecimento e dedicação na busca da verdade real.


AGRADECIMENTOS

 

A Deus por todas as bênçãos e livramentos durante estes dois anos de estudo e nossa jornada incessante na estrada.

Ao CIAP Educacional, pelo apoio e suporte prestados durante mais esta etapa em busca de conhecimentos.

Ao meu orientador Prof. Dr. Rafael Ayres Romanholo por todos os ensinamentos.

A todos os profissionais da área forense que compartilharam com amor, dedicação e atenção seus conhecimentos.

A minha família, em especial minha mãe Geonice Pereira e seu esposo João Batista Pimenta.

Ao meu esposo Thiago Freire de Souza por toda sua compreensão e paciência durante todo este período que estive ausente.


EPÍGRAFE

 

 “O desconhecido não nos paralisa; é na verdade um combustível para a mente, que nos incentiva”

(Hélvio Peixoto – presidente da Academia de Ciências Forenses)


RESUMO

  

Bioterrorismo compreende todo e qualquer ato que envolva disseminação intencional e deliberada de um agente biológico, no intuito de causar pânico, medo e/ou instabilidade econômico, ambiental e na saúde pública. Internacionalmente e historicamente esse tipo de evento já foi registrado, já no Brasil até o presente momento não houve casos confirmados, o que não quer dizer que estamos imunes, por isso, o intuito desta pesquisa visou compreender historicamente o emprego de microrganismos na prática do bioterrorismo, além de uma atualização das competências necessárias aos profissionais da área forense quanto a compreensão do modus operandi do microrganismo Bacillus anthracis, através da realização de um estudo de revisão baseado na sistematização de informações mediante busca eletrônica de material disponibilizado no Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) através da base de dados Google Acadêmico, utilizando-se como termo localizador “bioterrorismo”, “Brasil”, “arma biológica”, “bacillus”, “gênero bacillus” e “bacillus anthracis”, abrangendo um período de 15 (quinze) anos (de 2002 à 2017). Também foram consultados site especializados no assunto, como o CDC (Centers for Disease Control and Prevention) e CIEVS (Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde). Para a análise da pesquisa foram selecionados quatro artigos, três guias, uma atualização metodológica, três books na área de medicina, quatro books na área de microbiologia, uma entrevista, três reportagens e quatro informativos, dos quais pode-se concluir que apesar do Brasil ter investido nos últimos anos em hospitais e CIEVS, esse investimento ainda é ínfimo comparado a infraestrutura material e capacitação humana que necessitamos ter, pois, de acordo com o exposto por Cardoso e Vieira (2015) “o elemento-chave é médico e não militar”.

Palavras-chave: Bioterrorismo; Território brasileiro; Bacillus anthracis.

 

ABSTRACT

  

Bioterrorism comprises any and all acts that involve intentional and deliberate dissemination of a biological agent in order to cause panic, fear, and / or economic, environmental, and public health instability. Internationally and historically this type of event has already been registered, in Brazil until the present moment there have been no confirmed cases, which does not mean that we are immune, so the aim of this research was to understand historically the use of microorganisms in the practice of bioterrorismo, as well as an updating of the skills required for the forensic professionals in understanding the modus operandi of the Bacillus anthracis microorganism, through a review study based on the systematization of information through electronic search of material made available in the Portal of Periodicals of the Coordination of Improvement of Higher Level Personnel (Capes) through the Google Scholar database, using the term "bioterrorism", "Brazil", "biological weapon", "bacillus", "bacillus genus" and "bacillus anthracis". Covering a period of 15 (fifteen) years (from 2002 to 2017). We also consulted a specialized website on the subject, such as the Centers for Disease Control and Prevention (CDC) and CIEVS (Center for Strategic Information in Health Surveillance). For the analysis of the research were selected four articles, three guides, a methodological update, three books in the area of ​​medicine, four books in the area of ​​microbiology, an interview, three reports and four informative, from which it can be concluded that despite Brazil Having invested in hospitals and CIEVS in recent years, this investment is still insignificant compared to the material infrastructure and human capacity we need to have, since, according to Cardoso and Vieira (2015), "the key element is medical rather than military ".

Keywords: Bioterrorism; Brazilian territory; Bacillus anthracis. 

 

 

1 INTRODUÇÃO

  

1.1 PROBLEMÁTICA

  

O uso de substâncias químicas e de agentes biológicos como estratégia militar de dominação não constitui um artifício bélico recente. Situações de conflito envolvendo o emprego desse tipo de agente verificaram-se desde a antiguidade, tendo, todavia, adquirido maior visibilidade no decurso dos conflitos bélicos ocorridos no século XX (CARDOSO e VIEIRA, 2015).

 

 

Um evento emblemático com impacto significativo em questões de segurança mundial aconteceu nos Estados Unidos em 2001, onde Osama Bin Laden através do grupo terrorista Al Qaeda enviou esporos do Bacillus anthracis via carta postal, contaminando 22 pessoas, levando a 5 óbitos (LOPES, 2012; GOLDMAN e SCHAFER, 2014; LONGO et al, 2013, KASPER et al, 2017).

Indiretamente esse evento também influiu preocupações em outros países. No Brasil, mais especificamente no “Rio de Janeiro, houve suspeita de contaminação em um avião vindo da Europa, mas exames não diagnosticaram presença da bactéria na aeronave”, fazendo com que o governo federal aderisse a medidas protetivas contra possíveis casos de contaminação por antraz no país (BRASIL, 2001a).

Apesar de todos os esforços e da mobilização do governo brasileiro, o Brasil ainda é falho quando se trata de um canal de comunicação formal, centralizado e atualizado (inexistente) sobre bioterrorismo (PEREIRA, SILVA e JURBERG, 2012).

  

1.2 PERGUNTA PROBLEMA

  

Estamos preparados para um eventual ataque bioterrorista?

 

1.3 HIPÓTESE

  

A estrutura brasileira frente a um evento deste porte ainda é insuficiente em termos de recurso humano e material.

  

1.4 JUSTIFICATIVA

  

“Até hoje, não há registro indiscutível de que o Brasil tenha sido alvo ou origem de qualquer atentado de bioterrorismo que tenha causado dano à saúde humana” (GOLDMAN e SCHAFER, 2014), no entanto, a inexistência de registro, não quer dizer que estamos imunes, pois, conforme exposto por Kasper et al (2017), Longo et al (2013) e Rabinovitch e Lourenço (2003) o objetivo principal de um ataque bioterrorista é infundir a histeria e pânico além de abater a moral de uma sociedade por meio da incerteza e do medo, afetando as estruturas de um país, enfraquecendo-o.

 “Ataques de bioterrorismo, embora tenham baixa probabilidade de acontecer, causam grande impacto sobre a Saúde Pública pelo potencial de causar mortes em baixas concentrações e efeitos sérios e de longo prazo na saúde dos sobreviventes” (BRASIL, 2014), e como vivemos em um país cuja economia é centrada em diferentes pilares, com destaque a agricultura, pecuária e indústria, cuja mão-de-obra é prioritariamente humana, um possível evento deste porte pode causar danos inimagináveis.

Portanto, como profissionais da área das ciências forenses necessitamos estar preparados para qualquer tipo de perícia para a qual for designado, mesmo para aquelas que acreditamos que nunca venha a acontecer. Temos por obrigação sabermos identificar possíveis sinais de quando um surto – seja em humanos, animais ou em plantas – é de origem infeccioso ou de causa intencional (bioterrorismo) e principalmente, temos que ter conhecimentos básicos para a realização de exames pertinentes neste tipo de evento.


2 OBJETIVO

 

2.1 OBJETIVOS GERAIS

  

Compreender historicamente o emprego de microrganismos na prática do bioterrorismo, além de uma atualização das competências necessárias aos profissionais da área forense quanto a compreensão do modus operandi do microrganismo Bacillus anthracis.

  

2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS

  

·         Identificar possíveis atos de bioterrorismo em território brasileiro;

·         Apresentar as características gerais do gênero Bacillus.

·         Verificar aspectos quanto a utilização do microrganismo Bacillus anthracis como bioarma, através dos possíveis métodos de contaminação e diagnósticos através da história da humanidade.


3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

  

3.1 BIOTERRORISMO

  

“Bioterrorismo é a disseminação de microorganismos causadores de doenças por indivíduos, grupos ou governos com o propósito de causar danos para ganhos ideológicos, políticos ou mesmo financeiros” (DE SOUZA et al, 2004).

Essa disseminação é caracterizada pela liberação deliberada de vírus, bactérias ou outros germes (agentes) – tipicamente encontrados na natureza ou modificados (modificações genéticas para produzir resistência antimicrobiana, criação de aerossóis de partículas finas, tratamento químico para estabilizar e prolongar a infecciosidade, e alteração da faixa de hospedeiro por meio de mudanças nos receptores proteicos da superfície) – no intuito de causar doenças ou morte em pessoas, animais ou plantas. Esses agentes podem ser disseminados através do ar, da água ou alimentos e são utilizados devido serem extremamente difíceis de detectar. Alguns agentes bioterroristas, como o vírus da varíola, podem ser transmitidos de pessoa para pessoa e alguns, como o antraz, não podem (CDC, 2007; LONGO et al, 2013; BRASIL, 2014; RABINOVITCH e LOURENÇO, 2003).

Diferentemente da guerra biológica, cujo objetivo é destruir o inimigo através de mortes em grande número, o objetivo principal de um ataque bioterrorista – além de índices elevados de morbidade – é infundir a histeria e pânico além de abater a moral de uma sociedade por meio da incerteza e do medo, afetando as estruturas de um país, enfraquecendo-o (KASPER et al, 2017; LONGO et al, 2013; RABINOVITCH e LOURENÇO, 2003).

“Ataques de bioterrorismo, embora tenham baixa probabilidade de acontecer, causam grande impacto sobre a Saúde Pública pelo potencial de causar mortes em baixas concentrações e efeitos sérios e de longo prazo na saúde dos sobreviventes” (BRASIL, 2014).

Como mecanismos de defesa contra possíveis atos de bioterrorismo é preciso ter um sistema altamente eficiente de vigilância em saúde pública e educação capaz de rapidamente identificar e efetivamente conter o ataque, além da disponibilidade de medidas defensivas (exames diagnósticos, intervenções terapêuticas e vacinas) tanto em reposta quanto em antecipação (KASPER et al, 2017; LONGO et al, 2013). O combate também pode ocorrer por “meio da socialização de informações, disseminação do conhecimento e capacitação de todos os profissionais responsáveis por atuar em situações de primeira resposta nesse tipo de evento” (CARDOSO e VIEIRA, 2015).

  

3.2 HISTÓRICO

  

As descrições do uso de patógenos microbianos como potenciais armas de guerra ou terrorismo datam de tempos antigos. Entre os episódios desse tipo mais citados estão os envenenamentos de suprimentos de água, no século VI a.C., com o fungo Claviceps purpúrea (ergotina do centeio) pelos assírios; o arremesso dos cadáveres de vítimas da peste sobre os muros da cidade de Kaffa pelo exército tártaro em 1346; e as tentativas dos ingleses de disseminar a varíola na população indígena norte-americana leal à França por meio de cobertores contaminados em 1763 (KASPER et al, 2017).

 

 

“A idéia do uso das doenças transmissíveis enquanto armas de guerra não é nova, mas apenas durante o século XX, com o desenvolvimento da microbiologia, é que se tornou factível a experimentação do desenvolvimento de microrganismos como arma de guerra” (LUNA, 2002).

No decorrer da I Guerra Mundial, os alemães recorreram ao Bacillus anthracis e ao Pseudomonas mallei, para infectar o gado utilizado pelas forças inimigas (LOPES, 2012).

Já no período da II Guerra Mundial a Alemanha, Japão, União Soviética e EUA desenvolveram programas de armas biológicas (LUNA, 2002; GOLDMAN e SCHAFER, 2014), mas somente o Japão as usou de maneira estabelecida – lançando pulgas para servirem de veículo à propagação da peste nalgumas cidades chinesas, tendo também utilizado Bacillus anthracis, a Neisseria meningitidis, e a Shigella spp, resultando em cerca de 10 mil mortos –, no entanto, era a União Soviética que detinha o maior programa, com cerca de 50 instalações e 60.000 funcionários (GOLDMAN e SCHAFER, 2014; LOPES, 2012; LUNA, 2002). A Alemanha também realizou experiências com diversos agentes em prisioneiros (Rickettsia prowazekii, Rickettsia mooseri, Hepatite A, Plasmodium spp). Os Aliados levaram igualmente a cabo experiências com o bacillus anthracis, através do rebentamento de bombas nas Ilhas Gruinard – Escócia (LOPES, 2012).

No período da Guerra Fria, os EUA realizaram várias experiências com diferentes tipos de agentes (Bacillus anthracis, Brucella suis, Aspergillus fumigatus, Coxiella burnetti, Francisella tularensis, Bacillus subtilis, Serratia marcescens) e a URSS desenvolveu diversas técnicas para a disseminação através de aerossóis de alguns agentes (Yersinia pestis), além de procurar solução para a produção massiva do vírus da Varíola, do Bacillus anthracis e de Yersinia pestis em pó (LOPES, 2012).

Em 1972, após a Convenção sobre Armas Biológicas e Toxinas (criado no intuito de eliminar a ameaça de bioterrorismo) assinada por 140 nações, esses programas deveriam ser desativados, no entanto, as estimativas atuais indicam que ainda existem muitas nações abrigando o desenvolvimento desses programas (GOLDMAN e SCHAFER, 2014).

Como prova ao não cumprimento do acordo firmado na Convenção sobre Armas Biológicas e Toxinas foi o “acidente de Sverdlovsk”, ocorrido em 1979, na Rússia que resultou na liberação acidental de aerossóis contendo o bacilo do antraz de uma das instalações da Biopreparat (agência governamental que executava o programa responsável na época pela larga escala de pesquisa, desenvolvimento, produção, armazenamento e “distribuição” de armas biológicas), provocando mais de 60 óbitos (LOPES, 2012; LUNA, 2002; LONGO et al, 2013; GOLDMAN e SCHAFER, 2014). As mortes foram registradas num raio de 50 km do local do acidente e acredita-se que intervalo da provável exposição e o início dos sintomas variou entre 2 e 43 dias, com maior predominância nas duas primeiras semanas (LONGO et al, 2013).

Esse acidente encontra-se registrado na publicação de um livro realizada 2000 nos EUA, pelo ex-vice-diretor da Biopreparat da época. Essa mesma agência também realizava outras pesquisas com a varíola (Orthopoxvirus), o antraz (Bacillus antracis) a tularemia (Francisella tularensis), o mormo (Burkholderia mallei), a meliloidose (Burkholderia pseudomallei), a peste (Yersinia pestis), a brucelose (espécies do gênero Brucella), os filovírus (Ebola, Marburg) e o arenavírus (Machupo) (LUNA, 2002)

Recentemente ocorreram três episódios que merecem atenção especial. O primeiro ocorreu em agosto de 1984, em The Dalles (Oregon – EUA), onde a Seita Rajneeshees, no intuito de influenciar uma eleição no condado de Wasco County, contaminou com Salmonella typhimurium (adquirido de um fornecedor comercial) porções de saladas de diferentes restaurantes, que culminou em 751 casos de salmonelose, no entanto, a eleição não foi afetada (LOPES, 2012; GOLDMAN e SCHAFER, 2014).

Em 1993, foi a vez de Tóquio – Japão sofrer com os efeitos de evento bioterrorista. Aum Shinrikyo – uma seita japonesa – no intuito de cumprir uma profecia apocalíptica foi responsável pela disseminação através de aerossolização de Bacillus anthracis e Clostridium botulinum em Tóquio, resultando em 6.000 contaminados e 10 óbitos (LOPES, 2012; GOLDMAN e SCHAFER, 2014). Essa mesma seita, “a coberto de uma pretensa missão humanitária no Zaire, tentou obter vírus Ébola para posterior propagação” (LOPES, 2012).

Em outubro de 2001, os EUA sofreram novamente com os efeitos de um episódio bioterrorista – que ilustraram a vulnerabilidade da população norte-americana frente aos ataques terroristas e a seriedade e intenção do governo federal de proteger seus civis – envolvendo a disseminação do Bacillus anthracis através de cartas enviadas pelo sistema postal norteamericano, durante um período de 2 meses, que culminou em 22 casos de antraz confirmados: 11 casos de afeção cutânea e 11 casos por inalação (5 mortes) (LOPES, 2012; GOLDMAN e SCHAFER, 2014; LONGO et al, 2013, KASPER et al, 2017). As contaminações resultaram do processo de moimento do esporo do Bacillus anthracis: a) haviam partículas moídas a um tamanho relativamente grande que contaminou as superfícies por gravidade; e b) haviam partículas do tamanho de um único esporo, que após liberadas no ar, foram inaladas (GOLDMAN e SCHAFER, 2014). Na época “suspeitouse de Bruce Ivins, cientista ligado a laboratórios de pesquisa de bio defesa do governo americano. Este acabou por se suicidar quando foi acusado pelo Departamento de Justiça dos EUA” (LOPES, 2012).

  

3.3 NO CONTEXTO BRASILEIRO

  

“Até hoje, não há registro indiscutível de que o Brasil tenha sido alvo ou origem de qualquer atentado de bioterrorismo que tenha causado dano à saúde humana” (GOLDMAN e SCHAFER, 2014), no entanto, não está imune a este, pois existem condicionantes circunstanciais que podem fazê-lo um alvo compensatório, tais como: a) considerado um dos dez pontos turísticos mais visitados no mundo; b) país protagonista em um cenário geopolítico internacional, que sedia grandes eventos esportivos internacionais com reunião de pessoas de várias nacionalidades e religiões; c) inserção na comunidade internacional; e d) crescimento da pesquisa e utilização de organismos geneticamente modificados (OGM) (GOLDMAN e SCHAFER, 2014; CARDOSO e VIEIRA, 2015).

 “Nos últimos anos, a ocorrência de epidemias e pandemias por doenças emergentes ou reemergentes, obrigou a comunidade internacional a aprimorar os serviços de vigilância em saúde”. No ano de 2000, a Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (SVS/ MS) participou da investigação de 100 surtos, com destaque as investigações de surto de: cólera em Pernambuco, febre amarela silvestre em Minas Gerais, Chagas aguda em Santa Catarina, toxoplasmose no Paraná, hantavirose no Distrito Federal e riquetisiose no Rio de Janeiro (BRASIL, 2016), mais nenhum envolvendo um evento bioterrorista.

Em 2001, após o fato ocorrido nos EUA, o Brasil acendeu sinal de alerta, quando pós suspeitos de conterem B. anthracis foram encontrados em diferentes circunstâncias e ambientes, iniciando-se assim uma mobilização em cadeia de parte da sociedade, com vistas a se detectar tal bactéria nestes e noutros materiais não clínicos” (RABINOVITCH e LOURENÇO, 2003).

“No Rio de Janeiro, houve suspeita de contaminação em um avião vindo da Europa, mas exames não diagnosticaram presença da bactéria na aeronave”. Artur da Távola (líder do governo no Senado pelo PSDB-RJ na época) comunicou em uma reportagem na época que o governo federal tomou medidas no intuito de proteger nossa população contra possíveis casos de contaminação por antraz no país, dentre elas, cinco hospitais de referência especializados no tratamento de doenças transmissíveis (São Sebastião, no Rio de Janeiro; Emílio Ribas, em São Paulo, Miguel Couto, em Salvador e Oswaldo Cruz em Recife e Curitiba) foram preparados nas principais capitais brasileiras para atender pessoas com suspeita de contaminação. Além dos hospitais, órgãos governamentais uniram forças e trabalharam em conjunto - Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Centro Nacional de Epidemiologia (Cenep), Polícia Federal (PF), Receita Federal, Departamento de Aviação Civil (DAC), Infraero e Correios (BRASIL, 2001a).

Um Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde – CIEVS foi criado no intuito de atuar diretamente na resposta rápida às emergências de saúde pública. Atualmente os CIEVS compõem a Rede Nacional de Alerta e Resposta às Emergências em Saúde Pública, que conta com 57 centros ativos (integrados por tecnologia de informação e comunicação que permite a resposta coordenada) em todo o Brasil, sendo: 1 no Distrito Federal, em todas as 26 capitais, e em quatro municípios estratégicos (BRASIL, 2016).

Segundo Pereira, Silva e Jurberg (2012) apesar de toda essa estrutura amplamente divulgada pelo governo, o Brasil ainda é falho quando se trata de um canal de comunicação formal, centralizado e atualizado (inexistente) sobre bioterrorismo. Eles destacam a grande dificuldade que o cidadão brasileiro teria para obter informações oficiais e sintetizadas sobre possíveis atos bioterroristas envolvendo agentes biológicos. Sugerem a ampliação do modelo de informação da Secretaria Nacional de Defesa Civil (único site que ofereceu um canal de comunicação claro com a população, além de informações sobre agentes biológicos com os protocolos de cuidados frente a doenças decorrentes de bioterrorismo, além das informações mitigadoras diante de ataques com armas biológicas).

  

3.4 PRINCIPAIS ARMAS BIOLÓGICAS E SEUS EFEITOS

  

“Agentes biológicos são germes que podem causar doenças em pessoas, rebanhos ou colheitas, ou até matá-los” (CDC, 2016a). Também podem ser animais, plantas e outros seres vivos incluindo bactérias, vírus, rickettsíase, parasitas, fungos, ou recombinantes, híbridos ou mutantes, inclusas as toxinas e estruturas proteicas, que “de acordo com o agente biológico empregado, pode haver o desenvolvimento de doenças com curto tempo de incubação, de fácil disseminação e transmissão, podendo ocorrer a exposição de populações não imunes ao agente”. Possuem diversas formas de prejudicar a saúde humana, desde leves reações alérgicas até ao óbito (BRASIL, 2014).

Na classificação das armas de destruição em massa, estão incluídos na categoria das armas químicas e nucleares (BRASIL, 2014; GOLDMAN e SCHAFER, 2014).

“Diversos agentes biológicos foram estudados com o objetivo de verificar seu potencial de uso como agentes no âmbito de guerra biológica, porém poucos evidenciaram características satisfatórias para tal fim” (RABINOVITCH e LOURENÇO, 2003).

Para que um agente seja considerado de uso como arma bélica, o mesmo, precisa se enquadrar em diversas características, dentre elas, eles precisam causar grande impacto na saúde pública, implicando alta taxa de indivíduos afetados e/ou alta taxa de mortalidade; fácil produção em massa; potencial para serem transmitidos por contágio de pessoa a pessoa; capacidade para induzir a percepção de pânico público e consequente disfunção das estruturas civis; dificuldade de detecção; necessidade de preparação especial da resposta; baixa dose infecciosa; estabilidade ambiental; e disponibilidade de medidas preventivas (vacinas), de tratamento específico, ou de meios de diagnóstico especializados (LOPES, 2012; LONGO et al, 2013).

 

E mesmo esses, para poderem ser usados como armas, necessitam ser submetidos a processos complexos que garantam a satisfação de requisitos múltiplos, nomeadamente a sua estabilidade à degradação pela manipulação e armazenamento durante os processos de transferência de energia implícitos na maioria dos cenários de disseminação, e, ainda, que o agente, uma vez liberado, se mantenha em doses infectantes numa área previsível. Estas condições demonstram a substancial dificuldade e até mesmo a inviabilidade da utilização desse tipo de armamento (RABINOVITCH e LOURENÇO, 2003)

 

 

“A sua aquisição podese processar através de programas nacionais de armas biológicas, de Estados apoiantes de organizações terroristas e de desvios (fraude, furtos, roubos, corrupção em laboratórios)” (LOPES, 2012).

O Centers for Disease Control and Prevention – CDC classifica os agentes biológicos de acordo com o grau da gravidade da doença que causam, conforme consta no QUADRO 01 – Categorias de agentes de bioterrorismo.

QUADRO 01- Categorias de agentes de bioterrorismo

Categoria

Agente biológico

 

 

A

Esses agentes são considerados de alta prioridade e nesta categoria incluem-se organismos ou toxinas que representam o maior risco para a segurança pública e nacional porque:

·         Podem ser facilmente disseminados ou transmitidos de pessoa para pessoa

·         Eles resultam em altas taxas de mortalidade e têm o potencial de grande impacto na saúde pública

·         Podem causar pânico público e desorganização social

·         Requerem uma ação especial para a preparação para a saúde pública.

 

 

B

Esses agentes são a segunda maior prioridade porque:

·         Eles são moderadamente fáceis de espalhar

·         Eles resultam em taxas de doença moderada e baixas taxas de mortalidade

·         Eles requerem melhorias específicas da capacidade de laboratório do CDC e monitoramento da doença.

 

 

C

Estes agentes de terceira maior prioridade incluem patógenos emergentes que poderiam ser projetados para propagação de massa no futuro porque:

·         Eles estão facilmente disponíveis

·         Eles são facilmente produzidos e espalhados

·         Eles têm potencial para altas taxas de morbidade e mortalidade e grande impacto na saúde.

Fonte: Adaptado das informações fornecidas pela Centers for Disease Control and Prevention – CDC, disponível em: <https://www.emergency.cdc.gov/bioterrorism/overview.asp > (2007).

Dentre todos os microrganismos com potencial para uso como bioarma o Bacillus anthracis e o vírus da varíola são os agentes que, na atualidade, reúnem condições para melhor atuarem em ações de bioterrorismo (RABINOVITCH e LOURENÇO, 2003).

A gama de modalidades de meios de disseminação dos agentes biológicos é imensa, destacando-se nomeadamente cartas, encomendas, pulverizadores normais, aviões para pulverização, extintores, sistemas de ar condicionado, geradores de fumos, ambientadores, produtos de consumo individual, contaminação da cadeia alimentar, contaminação de sistema abastecedor de água, agulhas contaminadas, projéteis, estilhaços, contato direto com pessoas ou animais contaminados e munições militares. Necessita-se também ter condições ambientais e locais apropriadas, tais como, tempo nebuloso ou no período noturno, ventos ligeiros (5/10 km/h), terreno uniforme, movimento de veículos e pessoas, existência de equipamentos de ar condicionado em funcionamento nos edifícios e de lugares muito frequentados (LOPES, 2012)

 

Por sua vez, existe um conjunto de indícios que nos permite suspeitar ou mesmo constatar que se está em presença de uma ação de disseminação de agentes biológicos, de onde sobressai a presença de líquidos ou pós suspeitos, as atividades de pulverização não programadas ou inabituais, os odores estranhos (alguns agentes são inodoros, mas se não forem purificados podem ter um odor semelhante à carne podre, à humidade ou a produtos em fermentação), a presença de dispositivos de disseminação, as informações sobre a sabotagem de sistemas abastecedores de alimentos e água, a receção de ameaças, o aparecimento de indivíduos com determinados quadros sintomáticos, o elevado índice de mortalidade entre vítimas que partilham os mesmos lugares (habitação, trabalho, outras atividades), o mesmo quadro sintomático em humanos e animais suscetíveis, a existência de uma enfermidade atípica numa determinada zona geográfica ou época do ano, e o diagnóstico de uma doença tipicamente associada ao bioterrorismo (antraz, varíola) (LOPES, 2012).

 

 

“Para que seja possível fazer face a uma situação desta natureza, tornase indispensável dispor de meios humanos com formação adequada, e de equipamentos apropriados para o efeito (exame do local, detecção, identificação, recolha, perícia, proteção individual e descontaminação)” (LOPES, 2012).

O CIEVS de Minas Gerais, localizado em Belo Horizonte, disponibilizou em 2014 um Manual de treinamento em vigilância sindrômica, no qual encontra-se um fluxograma quanto atos de bioterrorismo, conforme FIGURA 01 – Fluxograma de bioterrorismo.

FIGURA 01- Fluxograma de Bioterrorismo.

Fonte: Reproduzido do Manual de treinamento em vigilância sindrômica, disponível em: <http://portalpbh.pbh.gov.br/pbh/ecp/files.do?evento=download&urlArqPlc=manual-treinamento-vigilancia-sindromica-web.pdf> (2014).

 

3.4.1 Gênero Bacillus

  

A família Bacillaceae consiste em uma coleção variada de bactérias, podendo ser classificadas como aeróbicas ou anaeróbicas, em forma de cocos ou bacilos, Gram-positivos ou Gram-negativos, que possuem como capacidade comum a formação de endósporos – células dormentes especializadas, desidratadas com paredes espessas e camadas adicionais, responsável por permitir sua durabilidade no meio ambiente por muitos anos (MURRAY, 2014; JORGE, 2012; TORTORA, FUNKE e CASE, 2017; MADIGAN et al, 2016).

Apesar das dezenas de gêneros que compõem esta família, clinicamente somente duas possuem importância significativamente: gênero Bacillus (aeróbicos e anaeróbicos facultativos, formadores de esporos) e gênero Clostridium (anaeróbio estrito, formador de esporos) (MURRAY, 2014; JORGE, 2012; MADIGAN et al, 2016).

O gênero Bacillus compreende cerca de 250 espécies – sendo que cerca de 70 espécies são bacilos Gram-positivos esporulados –, no entanto, para interesse em ações de bioterrorismo somente o Bacillus anthracis tem potencial (MURRAY, 2014; JORGE, 2012).

“Espécies de Bacillus e Paenibacillus apresentam bom crescimento em meios definidos, contendo qualquer uma entre as várias fontes possíveis de carbono” (MADIGAN et al, 2016).


4 METODOLOGIA

  

4.1 MATERIAIS E MÉTODOS

  

4.1.1 Tipo de pesquisa

  

A pesquisa realizada enquadra-se nas especificações propostas por Prodanov (2013) como pesquisa exploratória – por ter como finalidade a obtenção de mais informações sobre o assunto investigado – de caráter bibliográfica – pois a mesma foi elaborada a partir de materiais já publicados sobre a temática – e revisão de literatura – onde “você reporta e avalia o conhecimento produzido em pesquisas prévias, destacando conceitos, procedimentos, resultados e conclusões para seu trabalho”.

  

4.1.2 Seleção de material e critérios de inclusão

  

A metodologia empregada baseou-se no levantamento literário das informações sobre a temática proposta a partir de um estudo de revisão mediante busca eletrônica por artigos, revistas, books on line e atualizações em português disponíveis no Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) através da base de dados Google Acadêmico, utilizando-se como termo localizador “bioterrorismo”, “Brasil”, “arma biológica”, “bacillus”, “gênero bacillus” e “bacillus anthracis”, abrangendo um período de 15 (quinze) anos (de 2002 à 2017).

Também foram consultados site especializados, como CDC (Centers for Disease Control and Prevention) e CIEVS (Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde)

Após análise prévia através da leitura do item “resumo” e “metodologia” foram incluídos na pesquisa artigos completos, entrevistas e reportagens contidas em revistas on line, books on line e atualizações que não apresentavam como metodologia estudo de revisão.

  

4.1.3 Critérios de exclusão

  

Após análise prévia através da leitura do item “resumo” e “metodologia” foram excluídos da pesquisa teses de dissertação (mestrado e doutorado) e monografias (graduação, pós-graduação e especialização), além das duplicatas (permanecendo somente uma via para estudo), artigos não disponibilizados na íntegra e artigos que apresentavam metodologia baseada também em estudo de revisão ou afins.

  

4.1.4 Análise dos dados

  

O estudo de revisão baseou-se na sistematização das informações através da análise, observação e seleção das informações relevantes à temática proposta.

Foram selecionados incialmente 56 artigos, dos quais somente quatro contemplavam efetivamente a temática proposta e se enquadravam nos critérios de inclusão e exclusão, conforme exposto no QUADRO 02 – Informações expostas no item “resumo” dos artigos selecionados. Também foram selecionados três guias, uma atualização metodológica, três books na área de medicina, quatro books na área de microbiologia, uma entrevista, três reportagens e quatro informativos.

QUADRO 02- Informações expostas no item “resumo” dos artigos selecionados.

Referência

Resumo

 

CARDOSO e VIEIRA, 2015

Após 2001, a utilização de patógenos reforçou seu emprego como arma de guerra. Este estudo descritivo tem por objetivo discutir estratégias de contingenciamento em ataque por anthrax, auxiliando no reconhecimento precoce e estabelecimento de medidas de contenção. Profissionais de saúde necessitam reconhecer a infecção, pois em atentados, o elemento-chave é médico e não militar. O anthrax por inalação é a forma de atentado mais provável com 100% de mortalidade, caso não haja tratamento imediato. É altamente resistente; tem período de incubação de um a seis dias; seus sintomas iniciais são similares à influenza; só permite diagnóstico em NB3; a vacina é aquela recomendada para ocupações de risco, de disponibilidade restrita; e requer profilaxia antibiótica longa.

 

 

 

DE SOUZA et al, 2004

 

A ciprofloxacina é um potente antibiótico da classe fluorquinolonas que possui um amplo espectro de atividade contra vários microoganismos patogênicos que podem incapacitar ou matar seres humanos e animais. A ciprofloxacina é um antibiótico de primeira escolha na terapia de infecções urinárias complicadas e de diarréias bacterianas. É também um agente alternativo para o tratamento de várias doenças sexualmente transmissíveis, bem como de osteomielite e alguns casos de feridas. O cloridrato de ciprofloxacina é uma importante arma contra o bioterrorismo para o tratamento do trato respiratório, sendo a única droga aprovada pelo FDA para o tratamento após exposição ao antraz inalado. A atividade biológica e as metodologias sintéticas utilizadas para preparação da ciprofloxacina, e de análogos, são discutidas neste artigo.

 

 

LUNA, 2002

O artigo discute a emergência do conceito de doenças infecciosas emergentes e reemergentes. Postula-se que o conceito surge frente às limitações da teoria da transição epidemiológica em explicar as tendências recentes da morbidade e mortalidade. São discutidas as bases da teoria da transição epidemiológica e as razões de sua superação. Em seguida, são apresentados o conceito de doenças emergentes e reemergentes, os fatores relacionados à emergência das doenças infecciosas e as principais ocorrências no Brasil. Por fim, são abordados os desafios colocados pela emergência e reemergência das doenças infecciosas, e propostas para o seu enfrentamento.

 

 

 

 

 

PEREIRA, SILVA E JURBERG, 2012

O terrorismo tem como objetivo produzir o maior número de mortos e promover instabilidades psíquicas, econômicas, sociais e ambientais. Inúmeras são as estratégias de comunicação, como a internet, que podem ser utilizadas, principalmente para mobilizar a população diante de um ataque dessa natureza. O objetivo desse estudo foi averiguar se existe um sistema de informação e segurança, disponibilizado pelo governo brasileiro na internet, que o cidadão pudesse facilmente acessar e saber como proceder no caso de bioterrorismo e, em seguida compará-lo com o modelo de comunicação do Centers for Disease Control and Prevention/USA. Foi realizada uma pesquisa exploratória, com abordagem qualitativa, em maio de 2011, utilizando os descritores bioterrorismo, terrorismo, ataque terrorista, guerra biológica, ação terrorista, arma biológica, risco, saúde pública e emergência, no site de busca Google. A pesquisa evidenciou que no Brasil, não existe um canal de comunicação formal, centralizado e atualizado, sobre bioterrorismo e que o cidadão brasileiro teria dificuldade para obter alguma informação oficial e sintetizada sobre ataques terroristas com agentes biológicos. Sugere-se aqui a ampliação do modelo de informação da Secretaria Nacional de Defesa Civil, único dentre os sites consultados que ofereceu um canal de comunicação claro com a população. Este site também contém informações sobre agentes biológicos com os protocolos de cuidados frente a doenças decorrentes de bioterrorismo, além das informações mitigadoras diante de ataques com armas biológicas.


5 RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

5.1 Bacillus anthracis

  

5.1.1 Características gerais

  

Os registros históricos da utilização do antraz (antrax, anthrax ou carbúnculo) remontam a era cristã, romana, grega e hindu. Possui esta denominação devido suas lesões terem tonalidade semelhantes ao carvão (do grego anthrakis). Em meados do século XIX, durante uma epidemia no gado em Wollstein, o cientista alemão Robert Koch conseguiu provar através de experimentos (injetou a bactéria do Bacillus anthracis em ratos, que então desenvolveram a doença semelhante à do gado) que o gado estava infectado com a doença antraz e que os esporos são capazes de resistir ao calor e à falta de alimento (TRABULSI et al, 1999, apud, DE SOUZA et al, 2004; GOLDMAN e SCHAFER, 2014).

Devido algumas características (esporos são fáceis de se encontrarem na natureza, de serem produzidos em laboratório e permanecer viáveis por décadas; serem difíceis de destruir pelos procedimentos-padrão de descontaminação, arma silenciosa, não detectável a olho nu, olfato ou paladar e pode ser utilizado em pó, spray, comidas e água) o Bacillus anthracis é um dos agentes biológicos mais provavelmente utilizado em um ataque bioterrorista. Comum nas regiões agrícolas da América Central e do Sul, África Subsaariana, Ásia Central e Sudeste da Ásia, na Europa Central e Sul da Europa, e no Caribe, provoca uma doença infecciosa grave, não contagiosa, conhecida como antraz, causada por uma bactéria gram-positivo imóvel grande (1 x 3 a 8 µm), não hemolítico, arranjado como bacilo isolado ou aos pares, ou ainda como longas cadeias serpentiformes, que possui o formato de haste (esporos), aeróbios ou anaeróbios facultativos e catalase positivos que pode ser encontrada naturalmente no solo, afetando geralmente animais domésticos e silvestres ao redor do mundo (CDC, 2016a; KASPER et al, 2017; LONGO et al, 2013, MURRAY, 2014; JORGE, 2012).

Segundo Murray (2014) os principais fatores responsáveis pela virulência do Bacillus anthracis são a presença de:

·         Cápsula polipeptídica: formada por poli-D-ácido glutâmico, inibindo a fagocitose das células em replicação;

·         Toxina de edema: formada quando o antígeno protetor (PA) é combinado com o fator de edema (EF), responsável pelo acúmulo de fluídos;

·         Toxina letal: formada quando o antígeno protetor (PA) é combinado com o fator letal (LF), responsável pela estimulação da liberação do fator de necrose tumoral-α (TNF-α) pelos macrófagos, liberação de interleucina-1β (IL-1β) e outras citocinas pró-inflamatórias.

“Esses fatores de virulência são codificados por plasmídeos, estando os genes para toxina presentes no plasmídeo pX01 e os genes responsáveis pela síntese da cápsula no plasmídeo pX02” (JORGE, 2012).

  

5.1.2 Meios de contaminação

  

“Infecta primariamente herbívoros, sendo o homem um hospedeiro acidental” (MURRAY, 2014).

Os animais domésticos e/ou silvestres podem ser contaminados através da respiração ou ingestão de esporos em plantas, água ou solo contaminados. Em áreas com histórico de contaminação de animais, a vacinação rotineira pode ajudar a prevenir surtos. Já a contaminação humana se dá quando os esporos do antraz entram no organismo humano – via inspiração, ingestão ou penetram na pele através de lesões – onde a bactéria multiplica-se, propaga-se, produz toxinas (venenos) e causa a forma grave da doença. (CDC, 2016a).

Não é transmissível de pessoa para pessoa da maneira que você pode pegar um resfriado ou gripe, devido seu crescimento bacteriano ocorrer nos linfonodos de mediastino, mais do que na árvore brocopulmonar (CDC, 2016a; MURRAY, 2014; JORGE, 2012)

Em casos raros, esse tipo de transmissão tem sido relatado em casos de antraz cutâneo, onde as descargas de lesões cutâneas podem ser infecciosas. Existem atividades trabalhistas que aumentam a chance de infecção em humanos, como é o caso dos trabalhadores que lidam direto com os animais ou produtos de origem animal contaminados. Uma nova forma de contaminação foi identificada no norte da Europa em usuários de heroína injetável (CDC, 2016a).

Um ataque bioterrorista pode ocorrer de várias formas: a) os esporos podem ser colocados em cartas e enviados pelo correio, como ocorreu em 2001 (nos Estados Unidos da América), ou ser inseridos em alimentos ou na água; b) ser liberados no ar a partir de um caminhão, prédio ou avião, pois, são fáceis de serem carregados pelo ar ou até mesmo por roupas, sapatos e outros objetos, contaminando as pessoas através da respiração (CDC, 2016a).

Para que o esporo do antraz possa ser disseminado via aerodispersão, o mesmo, precisa ser moído a menos de 5 µm (GOLDMAN e SCHAFER, 2014).

A aplicabilidade da contaminação por antraz como arma biológica em atentados através da inalação, é a forma mais provável, com 100% de mortalidade, caso não haja tratamento imediato, ou 50% mesmo com o tratamento, pois provoca a doença na sua forma pulmonar (CARDOSO e VIEIRA, 2015; LONGO et al, 2013; GOLDMAN e SCHAFER, 2014; KASPER et al, 2017; MURRAY, 2014).

  

5.1.3 Formas clínicas

  

O antraz possui diferentes formas clínicas que dependem da forma como ocorreu sua contaminação. Normalmente apresenta-se sob as formas pulmonar, gastrointestinal e cutânea, que se não forem tratadas com antibióticos específicos podem levar ao óbito (CDC, 2016a; GOLDMAN e SCHAFER, 2014; KASPER et al, 2017; LONGO et al, 2013; MURRAY, 2014).

O antraz cutâneo caracteriza-se pela presença de pápula que se desenvolve depois da introdução dos esporos por um orifício da pele que progride para uma vesícula indolor que se transforma em escara negra associada a grande edema circundante, frequentemente, com adenopatia regional e sinais sistêmicos de infecção” (CDC, 2016a; GOLDMAN e SCHAFER, 2014; KASPER et al, 2017; LONGO et al, 2013; MURRAY, 2014).

Em geral, essa infecção resulta do contágio quando a pessoa lida com animais ou produtos de origem animal contaminados, como lãs, peles ou pelos. A doença é mais comum na cabeça, pescoço, antebraços e mãos, afetando a pele e os tecidos ao redor do local da infecção e é considerada a forma mais comum da infecção e a menos perigosa. A infecção normalmente se desenvolve de 1 a 7 dias após a exposição. Sem tratamento, até 20% das pessoas que contraem antraz cutâneo podem falecer. Porém, com tratamento adequado, quase todos os pacientes sobrevivem (CDC, 2016a; KASPER et al, 2017; LONGO et al, 2013; MURRAY, 2014; JORGE, 2012).

O antraz por inalação ocorre quando uma pessoa inala os esporos do antraz (CDC, 2016a). Esses esporos são fagocitados por macrófagos alveolares e migram para os linfonodos mediastinais e peribrônquicos, onde revertem a formas vegetativas e produzem toxinas edematogênica e a toxina letal, toxinas estas responsáveis pelas manifestações clínicas – colapso cardiovascular e morte (GOLDMAN e SCHAFER, 2014; KASPER et al, 2017; MURRAY, 2014).

Em geral, essa infecção resulta do contágio quando a pessoa trabalha em locais como moinhos de lã, matadouros e curtumes, onde podem inspirar os esporos ao trabalhar com animais ou produtos de origem animal contaminados. A doença começa inicialmente nos nódulos linfáticos peitorais, antes de se propagar para o restante do corpo e, por fim, causar problemas respiratórios graves e choque. É considerada a forma mais mortal de antraz. A infecção normalmente se desenvolve dentro de uma semana após a exposição, mas o desenvolvimento pode durar até 2 meses. Sem tratamento, apenas cerca de 10% a 15% dos pacientes sobrevive. Porém, com tratamento agressivo, a taxa de sobrevivência aumenta para cerca de 55% (CDC, 2016a; KASPER et al, 2017; LONGO et al, 2013; MURRAY, 2014; JORGE, 2012).

O antraz gastrointestinal ocorre quando uma pessoa come a carne crua ou malcozida de um animal infectado pelo antraz (CDC, 2016a). Essa apresentação é rara e provavelmente não provém de ações de bioterrorismo (KASPER et al, 2017; LONGO et al, 2013).

Uma vez ingeridos, os esporos do antraz podem afetar o trato gastrointestinal superior (formando úlceras na boca, garganta e esôfago – levando a linfadenopatia regional, edema e sepse), estômago e intestinos. A infecção normalmente se desenvolve de 1 a 7 dias após a exposição. Sem tratamento, mais da metade dos pacientes vem a falecer. Porém, com tratamento adequado, 60% dos pacientes sobrevivem (CDC, 2016a; MURRAY, 2014; JORGE, 2012).

Recentemente, uma nova modalidade de contaminação por antraz foi identificada no norte da Europa, o antraz por injeção em usuários de heroína injetável (CDC, 2016a).

  

5.1.4 Sintomas

  

“Os sintomas do antraz dependem do tipo de infecção, e podem levar de 1 dia a mais de 2 meses para aparecer. Se não forem tratados, todos os tipos de antraz podem se propagar pelo corpo e causar doença grave e até morte” (CDC, 2016a).

Como todos os sintomas (QUADRO 03 – Quadro de informações sobre os sintomas de cada forma clínica da doença antraz) não surgem imediatamente, devido ao seu período de incubação (usualmente é de 4 a 5 dias, mas varia de 2 a 43 dias depois da exposição), em caso de surto, os pacientes podem buscar atendimento médico tardio, uma vez que, os sintomas iniciais, principalmente do antraz por inalação assemelham-se aos dá influenza (no entanto, com ausência de coriza), dificultando o tratamento (CARDOSO e VIEIRA, 2015; GOLDMAN e SCHAFER, 2014).

QUADRO 03 - Quadro de informações sobre os sintomas de cada forma clínica da doença antraz.

FORMAS CLÍNICAS

CARACTERÍSITCAS

Antraz cutâneo

  • Pequenas bolhas ou protuberâncias que podem coçar;
  • Inchaço que pode ocorrer ao redor da ferida;
  • Ferida cutânea indolor (úlcera) com um centro escuro que aparece depois das pequenas bolhas ou protuberâncias. Na maioria das vezes, a ferida aparece no rosto, pescoço, braços ou mãos.

Antraz por inalação

  • Febre e calafrios;
  • Cianose;
  • Hipotensão;
  • Incômodo no peito, devido a sepse profunda com dor torácica;
  • Dificuldade para respirar, devido a compressão torácica por grandes derrames pleurais e expansão mediastinal;
  • Obnubilação ou tonteira;
  • Tosse;
  • Náusea, vômitos ou dor de estômago;
  • Dor de cabeça;
  • Transpiração (muitas vezes excessiva);
  • Cansaço extremo;
  • Dores no corpo;
  • Falência múltipla de órgãos.

Antraz gastrointestinal

  • Febre e calafrios;
  • Inchaço do pescoço ou glândulas do pescoço;
  • Dor de garganta;
  • Dor ao engolir;
  • Rouquidão;
  • Náusea e vômito, em especial vômito com sangue;
  • Diarreia ou diarreia com sangue;
  • Dor de cabeça;
  • Rubor (vermelhidão) e olhos vermelhos;
  • Dor no estômago;
  • Desmaios;
  • Abdômen (estômago) inchado.

Antraz por injeção

  • Febre e calafrios;
  • Pequenas bolhas ou protuberâncias que podem coçar no local onde a droga foi injetada;
  • Ferida cutânea indolor com um centro escuro que aparece depois das pequenas bolhas ou protuberâncias;
  • Inchaço ao redor da ferida;
  • Abcessos nas camadas mais profundas da pele ou nos músculos em que a droga foi injetada.

Os sintomas do antraz por injeção são semelhantes aos do antraz cutâneo, mas o antraz por injeção pode se propagar pelo corpo mais rapidamente e pode ser mais difícil de se reconhecer e de tratar. As infecções cutâneas e as infecções no local da injeção são comuns em usuários de drogas injetáveis, e não necessariamente significam que a pessoa foi contaminada por antraz.

Fonte: Adaptado das informações fornecidas pelo Guia para compreender o Antraz fornecido via online pela Centers for Disease Control and Prevention – CDC, disponível em: <https://www.cdc.gov/anthrax/pdf/evergreen-pdfs/anthrax-evergreen-content-portuguese-508.pdf> (2016a) e do livro Goldman Cecil medicina, disponível em: <https://books.google.com/books?isbn=8535269762GOLDMAN e SCHAFER> (2014).

  

5.1.5 Diagnóstico laboratorial

  

As únicas formas de confirmar o diagnóstico de antraz são: a) medir os anticorpos ou toxinas sanguíneas; e b) testar a presença de Bacillus anthracis diretamente na amostra de sangue (coletada antes do início do tratamento com antibiótico), através de exames específicos - amostra de lesão cutânea, fluido raquidiano e secreções respiratórias (hemocultura). Em casos de suspeita de contaminação de antraz por inalação deve-se realizar exame de imagens de raio-X torácico e tomografia computadorizada dos pulmões para confirmar se o paciente apresenta alargamento mediastinal ou efusão pleural (KASPER et al, 2017; DE SOUZA et al, 2004; GOLDMAN e SCHAFER, 2014; CDC, 2016a).

 

Microrganismo presente em altas concentrações nos materiais clínicos (microscopia tipicamente positiva) e rápido crescimento em cultura.

A identificação preliminar é realizada com base na microscopia (bacilos Gram-positivos imóveis) e na morfologia colonial (colônias aderentes não hemolíticas); confirmada pela demonstração da cápsula, tanto pela lise produzida por fago gama, por teste direto com anticorpo fluorescente positivo para o polissacarídeo específico da parede celular, quanto por testes moleculares positivos para amplificação de ácidos nucleicos (MURRAY, 2014).

  

5.1.6 Tratamento

  

Existem diversificadas opções de tratamento a disposição dos médicos, incluindo antibiótico e antitoxina. Em casos agravantes os pacientes são hospitalizados, exigindo tratamento agressivo, como drenagem contínua de fluídos e ajuda respiratória através de ventilação mecânica (GOLDMAN e SCHAFER, 2014; CDC, 2016b).

Os antibióticos intravenosos são utilizados em todos os tipos de infecção por antraz. As antitoxinas possuem como alvo as toxinas no organismo e devem ser administradas juntamente com outras opções de tratamento (CDC, 2016b).

O cloridrato de ciprofloxacina é uma importante arma contra o bioterrorismo para o tratamento do trato respiratório, e era até então a única droga aprovada pelo Food and Drug Administration – FDA para o tratamento, após exposição, ao antraz inalado (DE SOUZA et al, 2004). “Antraz cutâneo adquirido naturalmente pode ser tratado com amoxicilina” (MURRAY, 2014).

Atualmente os fármacos aprovados pela FDA incluem a penicilina endovenosa, levofloxacino e doxiciclina, num período de administração de 60 a 100 dias (GOLDMAN e SCHAFER, 2014; LONGO et al, 2013). “A clindamicina e a rifampicina possuem atividade in vitro contra o microrganismo e podem ser usadas como parte dos esquemas terapêuticos” (LONGO et al, 2013). Esses esquemas terapêuticos podem envolver a combinação de doxiciclina e ciprofloxacino com um segundo fármaco (penicilina, imipenem, rifampicina, cloranfenicol, claritromicina, vancomicina ou clindamicina) (GOLDMAN e SCHAFER, 2014; MURRAY, 2014).

Nos EUA, mais especificadamente na Califórnia, em 2013 cientistas descobriram um novo composto extraído de um microrganismo encontrado em sedimentos do mar, chamado anthracimycin, que se demonstrou eficiente no combate do antraz (REDFERN, 2013).

  

5.1.7 Prevenção

  

A utilização de antibióticos, tais como ciprofloxacina e doxiciclina, como forma preventiva é administrado, durante 60 dias a 100 dias (embora estudos recentes em animais sugerem que cursos mais curtos também são eficientes), em pacientes que foram expostos a doença, mais que não apresentaram os sintomas. Eles trabalham de duas formas: 1. Matando o antraz ou 2. Impedindo seu crescimento, consequentemente matando-o (CDC, 2015; GOLDMAN e SCHAFER, 2014).

“A primeira vacina eficaz contra o antraz foi desenvolvida para animais por Luis Pasteur em 1881” (KASPER et al, 2017). Atualmente, há uma única vacina aprovada para uso humano, produzida a partir do sobrenadante de cultura acelular (um filtrado isento de céluas) de uma cepa atenuada (não encapsulada) do Bacillus anthracis (cepa Stern) (LONGO et al, 2013; GOLDMAN e SCHAFER, 2014; KASPER et al, 2017).

Mesmo existindo uma vacina licenciada para prevenção da doença, a Anthrax Vaccine Adsorbed (AVA) – que protege contra as formas cutânea e inalatória -, a mesma, geralmente não está disponível para o público em geral, sendo administrada, como aprova a FDA sob um protocolo especial para o uso da vacina em emergências em adultos em situação de risco antes da exposição ao antraz por causa do trabalho exercido – laboratórios que trabalham com antraz e alguns membros do exército americano (CDC, 2015).

“Profilaxia pré-exposição consiste em cinco doses por via intramuscular nas semanas zero e quatro e após seis, 12 e 18 meses, seguidos de reforços anuais” (GOLDMAN e SCHAFER, 2014).

Múltiplos erros foram registrados em 2001 nos Estados Unidos após o ataque ocorrido. Precisamos estar preparados para um eventual acontecimentos: a) as equipes médicas brasileiras precisam estar preparadas técnico-científica e emocional para a identificação precoce dos sintomas e susceptibilidade da doença para que não cometam os mesmos erros; b) fortalecimentos dos esforços das equipes de urgência e emergência; c) treinamentos integrados no processo de educação continuada; d) planos de ação necessitam incluir a exigência de notificar quaisquer lesões ou doenças que possuam características de surto deliberado. “A rentabilidade desse esforço será dupla, já que tais recursos são os mesmos necessários para a assistência, controle e monitoramento das doenças infecciosas emergentes e reemergentes” (CARDOSO e VIEIRA, 2015).

Em 2001, após os incidentes nos EUA, o governo brasileiro realizou campanhas para prevenção de atos de bioterrorismo, que englobou a distribuição de cartaz via e-mail, alertas para envelopes ou pacotes com aspecto ou cheiro estranho, peso ou rigidez anormal, além de manchas químicas no invólucro. Também foi orientado precauções ao recebimento de envelopes ou pacotes envelopes com selos estrangeiros ou com excesso de selos, sem remetente ou trazendo erros de ortografia no campo reservado ao destinatário. Outro elemento que deve despertar atenção é o excesso de barbantes e fitas adesivas no pacote (BRASIL, 2011b).


6 CONCLUSÃO

 

Conforme verificado através da análise do material coletado, apesar de existirem suspeitas, nenhum caso de bioterrorismo foi confirmado em território brasileiro, o que não quer dizer que isso não possa acontecer. Quando falamos ou pensamos em bioterrorismo, não podemos nos ater somente aos casos generalizados ocorridos mundialmente, como a utilização principalmente do Bacillus anthracis, mais precisamos nos ater que potencialmente somos um País pautado na agricultura e pecuária, áreas que podem sofrer facilmente se um ataque deste porte for efetuado, pois trabalha-se em muitos casos com organismo geneticamente modificados, cuja vulnerabilidade é acentuada.

O estudo voltado a análise da utilização do Bacillus anthracis como agente biológico serve para ilustrar como nosso conhecimento sobre o assunto ainda é limitado, pois, quando se ouve a palavra bioterrorismo ligada ao microrganismo bacillus anthracis, muitos dizem e/ou pensam “isso eu já sei” ou somente associam ao fato ocorrido nos EUA. Só que essa junção vai muito além desse pensamento, pois, conforme averiguado esse microrganismo é o mais empregado como bioarma durante toda a história da humanidade e se este for utilizado no Brasil, ou até mesmo, se o vírus da varíola foi reintroduzido em nossa população, os danos biopsicossiais seriam imensuráveis, devido a diversos fatores, mais principalmente, devido a ignorância e a pouca preocupação em estudo voltados ao tema, confecção de manuais e informativos, ou até mesmo um site de conhecimento geral voltado a divulgação de procedimentos padrões de segurança em território brasileiro para possíveis agentes biológicos.

Um exemplo do que estou querendo dizer é o surto de febre amarela em Minas Gerais. Olha o caos ocorrido pela pouca informação que a população detém. Imagina se ocorrer um surto de antraz, doença esta desconhecida pela grande maioria.

Também pode ser averiguado que apesar do Brasil ter investido em CIEVS e Hospitais de referência especializados em tratamento de doenças transmissíveis, o Brasil não está preparado para um possível ato de bioterrorismo, pois, apesar dos CIEVS se fazerem presentem em todas as capitais, Distrito Federal e em quatro municípios estratégicos, os Hospitais ditos como preparados para proteger nossa população, estão localizados em pontos não estratégicos, pois, ficam nas regiões Sudeste, Nordeste e Sul, deixando toda a população das regiões Norte e Centro-Oeste desassistidas – lembrando que estas regiões são conhecidas por possuir uma grande demanda populacional carente e sem conhecimentos básicos quando se trata de assuntos voltados a procedimento padrão voltado a tratamentos.

Quando se trata de sites informativos quanto a procedimentos padrões para casos que possam envolver um possível ato de bioterrorismo em território brasileiro, o Brasil também é falho, pois, durante a pesquisa só foi possível localizar um fluxograma relacionado ao tema disponibilizado em 2014 pelo CIEVS de Minas Gerais.

Devido aos fatores expostos, pode-se concluir categoricamente que o Brasil não está preparado, tanto em infraestrutura material quanto em capacitação humana para enfrentar um ato de bioterrorismo, e que apesar dos investimentos realizados, estes são ínfimos a real necessidade de um surto e que um longo caminho precisa ser percorrido, caminho este, que precisa priorizar todos os setores governamentais, mas principalmente a polícia técnica especializada e todos os setores que englobam a área da saúde pública, pois, são estes os setores que atuaram na linha de frente.

 

 

REFERÊNCIAS

  

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador. Plano de Contingência para Emergência em Saúde Pública por Agentes Químico, Biológico, Radiológico e Nuclear / Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador. – Brasília : Ministério da Saúde, 2014. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/plano_contingencia_emergencia_saude_quimico.pdf>. Acesso em  18  Jan.  2017.

 

_____. Portal da Saúde – SUS. Apresentação. Brasília – DF: 2016. Disponível em: <http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/o-ministerio/principal/leia-mais-o-ministerio/1313-secretaria-svs/cievs-centro-de-informacoes-estrategicas-e-resposta-em-vigilancia-em-saude/25193-cievs-leia-mais>. Acesso em  17  Jan.  2017.

 

_____. Senado Federal. Líder do governo relata medidas de segurança contra o antraz no Brasil. Agência Senado, Brasília – DF: 2001a.  Disponível em: <http://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2001/10/16/lider-do-governo-relata-medidas-de-seguranca-contra-o-antraz-no-brasil>. Acesso em  17  Jan.  2017.

 

_____. Senado faz campanha preventiva sobre o antraz. Agência Senado, Brasília – DF: 2001b.  Disponível em: <http://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2001/10/16/senado-faz-campanha-preventiva-sobre-o-antraz>. Acesso em  17  Jan.  2017.

 

CARDOSO, Telma Abdalla de Oliveira; VIEIRA, Duarte Nuno. Bacillus anthracis as terrorist threat. Saúde em Debate, v. 39, n. 107, p. 1138-1148, 2015. .Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-11042015000401138&script=sci_arttext&tlng=pt>. Acesso em  09  Jan.  2017.

 

CDC. Centers for Disease Control and Prevention. Preparação e Resposta de Emergência. Bioterrorismo. 2007. .Disponível em: <https://www.emergency.cdc.gov/bioterrorism/overview.asp>. Acesso em  14  Jan.  2017.

 

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