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  ESPACIALIZAÇÃO DO CARAMUJO DA ESPÉCIE Biomphalaria glabrata DO CÓRREGO DA LÁGOA DO PARQUE DE PITUAÇÚ SALVADOR – BA
18/03/2014

JÚLIA VEIGA SANTANA
BA - SALVADOR
O presente trabalho tem o objetivo de verificar as causas bioecológicas para a presente espacialização e proliferação da espécie Biomphalaria glabrata. A área de estudo está inserida no Parque Metropolitano de Pituaçú, a oeste da Praia de Pituaçú, en

Área(s) de Atuação que o Presente Artigo trata
Biologia
Meio Ambiente e Biodiversidade


INTRODUÇÃO: Os moluscos são bem antigos na história da evolução do planeta, os registros geológicos mais antigos para os moluscos da família Planorbidae comprovam sua presença desde o período jurássico, há cerca de 160 milhões de anos (NEVES, 2005). O nome Biomphalaria (do latim bis = duas vezes; do grego omphalos = umbigo, em referência ao aprofundamento do giro central nos dois lados da concha) (CARVALHO, 2008). A espécie B. glabrata da classe Gastropoda, pertence ao filo Mollusca e constitui cerca de ¾ do número total de espécies do filo e se destaca pela sua importância médica, veterinária e econômica. Suas principais características são: torção da massa viceral, presença de rádula, 1 ou 2 pares de tentáculos e o Músculo columelar que prende o corpo do animal à concha (MINISTÉRIO DA SAÚDE). Os caramujos do gênero Biomphalaria apresentam duas características biológicas fundamentais para a preservação e a expansão das espécies e populações, em ambientes sujeitos as perturbações ambientais: 1) são hermafroditas simultâneos e se reproduzem tanto por fecundação cruzada, quanto por autofecundação; e 2) em situações de seca, dessecam, mantendo-se vivos, recolhidos à concha, em estágio fisiológico vegetativo, preservando-se até a próxi¬ma estação úmida. A relação da distribuição geográfica das espécies do gênero Biomphalaria na Região Nordeste do Brasil tem grande importância espacial como vetora da esquistossomose, sendo encontrado nos estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia, estando quase sempre associado à distribuição da esquistossomose (PAZ, 1997). O Ministério da Saúde afirma que as espécies de Biomphalaria colonizam coleções hídricas naturais, artificiais e temporárias de praticamente todos os domínios geográficos, dessa forma a altitude não parece um detalhe relevante na distribuição e sobrevivência das espécies do gênero, uma vez que os registros de ocorrência vão de sítios localizados no nível do mar até ambientes situados a três mil metros, nas montanhas rochosas, ou no Lago Titicaca, a 4.280 metros de altitude. O foco de um estudo biogeográfico é a abordagem espacial, o que engloba a manifestação vital (vegetais, animais, e homens) através dos fatos distributivos que contribuem para a variação da biota nos mais diferentes lugares. Segundo Carvalho (2008) a área central de distribuição do caramujo Biomphalaria glabrata corresponde, principalmente, as mesoregiões Nordeste, Centro Norte Baiano, Metropolitana de Salvador, Centro Sul Baiano e Sul Baiano. A espécie em questão é a principal hospedeira do Schistosoma mansoni no Brasil, sendo a mais suscetível a se infectar com todas as linhagens de S. manson (NEVES, 2005). Paz (1997) cita que apesar de o parasitismo afetar drasticamente os caramujos, a abundância, a distribuição e a diversidade das espécies podem ser mais fortemente alteradas pelo modo de reprodução e dessecação, do que por infestação por parasitas. Carvalho at al (2008), discute que a extensa distribuição dos hospedeiros intermediários de S.mansoni no Brasil confere à esquistossomose caráter expansivo até mesmo para áreas consideradas indenes. As áreas endêmicas para esquistossomose no Brasil são heterogêneas quanto ao clima, à topografia e à vegetação, impedindo generalizações sobre a caracterização ecológica dos criadouros dos moluscos hospedeiros intermediários nessas diferentes áreas, por isso a necessidade de aspectos ecológicos relevantes como as características fsico-químicas da água, a vegetação macrofítica e o tipo de sedimento dos criadouros (PIERI, 1995 apud MINISTÉRIO DA SAÚDE). Ainda de acordo com o mesmo auto os moluscos hospedeiros podem colonizar uma grande variedade de habitats tanto lóticos (desde rios até pequenas valas) quanto lênticos (de lagoas a pequenas poças). Apesar da presença em ambientes hídricos de todos os tipos, tamanhos e profundidade, os planorbídeos são mais facilmente observados junto às margens de coleções hídricas de pequeno porte. Já os focos de transmissão propriamente ditos geralmente têm características ecológicas semelhantes, sendo localizados no Peri domicílio de comunidades urbanas ou rurais desprovidas de água encanada ou saneamento. Mesmo nas áreas sujeitas à secas sazonais, esses criadouros podem albergar populações permanentes de moluscos hospedeiros, alimentados por nascedouros ou água doméstica servida (MINISTÉRIO DA SAÚDE). Estando a área de estudo inserida no parque Metropolitano de Pituaçú, a oeste da Praia de Pituaçú (Figura 1), entre os bairros da Boca do Rio e Patamares, é relevante levantar a história e as características ambientais do local. O Rio Pituaçú possui cerca de 9,4 km de extensão e faz parte da bacia Hidrográfica do rio das Pedras, seu nome é de origem indígena e significa “Camarão”. Durante seu percurso passa pelos bairros de Sussuarana, Nova Sussuarana, Novo Horizonte, CAB, Pau da Lima, São Marcos e Pituaçu. Em 1906 no governo de Carneiro da Rocha foi construída em Pituaçú a represa, com a função de melhorar o abastecimento de água na cidade, que já contava com mais de 250 mil habitantes. A formação da lagoa artificial de grande beleza incentivou a ocupação da área em 1960, acelerando a degradação de remanescentes da mata Atlântica e restinga. Em 1977, o Decreto Municipal nº 5.168 aprovou o plano geral de aproveitamento da água da represa de Pituaçú, estabelecendo a preservação ecológica e a recomposição ambiental, e desse decreto nascia o Parque Metropolitano de Pituaçú. Com a publicação do Plano Diretor pela (Conder) em 1978 ficou definido seu uso (Lazer, Urbanização dos recursos naturais, ocupação do solo e preservação da Lagoa). As suas águas deixaram de ser usadas para o abastecimento em 2002 devido a sua poluição. Desde então o Parque Metropolitano de Pituaçú vem sofrendo com a ocupação desordenada, agravando os problemas ambientais, o que tem sido reflexo da valorização imobiliária, acentuada a partir da reforma urbana de 1968, que possibilitou a ocupação da Av. Paralela e o surgimento de bairros verticais como o imbuí (GOMES, 2008). A ocupação desordenada pela população no entorno do Parque tem contribuído para a poluição da lagoa, gerando desequilíbrios no ecossistema e provavelmente causando a proliferação dos caramujos da espécie Biomphalaria glabrata, hospedeiro do Schistosoma mansoni causador da doença Esquistossomose mansônica. O objetivo deste trabalho é verificar as causas bioecológicos para a presente espacialização e proliferação da espécie Biomphalaria glabrata no córrego da lagoa do parque de Pituaçú, tomando como base a Biogeografia, que consiste em investigar a distribuição, adaptação e explicação dos seres vivos na superfície terrestre. A partir deste conceito foram levantadas as seguintes hipóteses: a) A fragmentação do ecossistema de água doce manejado para atender as necessidades humanas pode estar diretamente relacionada com a presente distribuição e proliferação da espécie. b) O excesso de matéria orgânicas provavelmente originadas da comunidade local c) O excesso de macrófitas e possivelmente de cálcio que é utilizado para constituição da concha pode estar contribuindo para a proliferação dos caramujos, assim como os fatores físico-químicos METODOLOGIA A área foi observada levando em conta os fatores ambientais e locais como, vegetação em torno da margem, tipo de substrato, excrementos de outros animais e as práticas sanitárias da população local, com o intuito de levantar hipóteses para a presente distribuição dos caramujos da espécie Biomphalaria glabrata no córrego que contorna a lagoa da frente do Parque de Pituaçú, coodenadas: S 12º58’ 05,85” O 38º24’ 43,85” (Figura 2). O padrão de distribuição dos indivíduos foi observados em dias ensolarados e em dias de pós chuva. Foram também medidos os parâmetros físico-químicos do local como Ph, salinidade e temperatura ambiente (figura 3), a fim de comparar com a literatura as condições favoráveis ao desenvolvimento dos caramujos. RESULTADOS E DISCUSSÃO Segundo AB’ SÁBER, (2003) os domínios de paisagem do Parque de Pituaçú está classificada como domínios dos Mares de Morros, assim denominado devido a sua forma resultante da erosão. É possível destacar a presença de algumas “zonas deprimidas” formando lagoas nos conjuntos das planícies (CONDER, 1978). Foi tomada como base de estudo a lagoa da frente do parque, localizada em uma “zona deprimida”. O vazamento de uma tubulação de esgotamento sanitário em 2002 operado pela Embasa, provocou o início da eutrofização (Figura 4) e o posterior impedimento do uso de suas águas (PROJETO VIVER MELHOR, 2005). A investigação sistematizada da distribuição e as causas da ocorrência de pragas, muito tem a contribuir no grave problema da proliferação da Schistosomose, cujos vetores se propagam em ambientes aquáticos, estejam estes localizados no campo ou na cidade. Os caramujos objetos deste estudo estão localizados no córrego ao lado esquerdo da primeira lagoa do Parque de Pituaçu. Esse córrego tem 227 metros de extensão com profundidade variando de 9cm a 78cm (Figura 5). A partir dos 100 metros a água é bastante turva e contornada por vegetação herbácea de área alagada, apresentando um substrato lodoso, concordando com Carvalho (2008), que ressalta que a vegetação macrofítica mais comum nos criadouros de moluscos são as plantas herbáceas típicas de várzeas úmidas ou alagadas, proporcionando aos moluscos condições microclimáticas favoráveis, oferecendo proteção contra radiação solar, altas temperaturas e correntezas. Esse contexto muda a parti dos 141 metros, apresentando substrato arenoso com água corrente clara e baixa profundidade, onde o número de moluscos cai bastante (Figura 6). Ao longo do córrego foram colocados quadrantes de 1m² e feita contagem dos indivíduos no interior do mesmo (Figura 7). No ponto 4 do córrego, foi encontrado maior número de caramujos, pois tem uma grande quantidade de material lodoso (Figura 8). Figura 8 – Número de indivíduos encontrados por ponto E ainda segundo o Carvalho (2008), esses moluscos tendem a ocorrer preferencialmente em substratos ricos em argila fina e detritos orgânicos, tais substratos são ricos em microorganismos epifíticos e epilíticos, que constituem a principal fonte de alimento dos moluscos. Esses sedimentos também proporcionam um substrato macio, sob o qual os moluscos podem se abrigar da luz solar (Figura 9). Foi observado que em dias ensolarados com altas temperaturas, os caramujos apresentavam distribuição aleatória, já em dias de pós chuva e aumentos dos níveis de água, apresentavam-se mais dispersos, evitando a competição por alimento. Carvalho (2008) afirma que durante os períodos chuvosos crescem as possibilidades de dispersão por carreamento, sendo que em inundações geralmente ocorre à ampliação das áreas colonizadas, já nos períodos menos chuvosos o maior problema é a resistência a dessecamento. A área de estudo apresentou níveis de pH variando entre 5.0, e 8,0 (Figura 10), a depender do ponto. De acordo com o ministério da Saúde, os biótopos com moluscos revelam em sua maioria, pH, entre 6,0 e 8,0. Entetanto no estado de Serjipe já foram encontrados criadouros com pH variando entre 4,5 e 8,0. A temperatura da água de acordo com os quadrantes ao longo do córrego, variou de 28ºC a 34ºC (Figura 11) Estando dentro dos parâmetros observados por Carvalho (2008), que afirma que as atividades vitais dos caramujos apresentam-se em gradientes de 12ºC a 36ºC. Em relação à salinidade, foi registrado 0% na maior parte dos pontos, exceto para os pontos 5 e 6 do córrego que apresentou alta salinidade (Figura 12), CONCLUSÃO A introdução dos caramujos nesta área pode ter sido trazida com a aterragem das ruas e terrenos, com solo de outras regiões, pois em áreas sazonais os criadores podem hospedar moluscos permanentes que se alimentam por cursos de água. Mais uma hipótese é que sua proliferação pode ter sido por causa dos desejos das residencias e instalações sanitárias, pois os caramujos vivem em condições precárias as margens dos corpos d ʹágua, preferindo ambientes modificados, junto as residencias criando habitat favoráveis em locais lênticos. Eles também podem se deslocar por grandes espaços em fluatação, pela desova dos mesmos, aderidos em folhas (Figura 13), galhos ou qualquer outro objeto flutuante, favorecendo sua proliferação e dispersão.. Carvalho (2008), afirma ainda que as oscilações do nível e volume dos ambientes hídricos, como ocorrem em diversas áreas do nordeste e centro-oeste brasileiro, é uma situação favorável à seleção natural de indivíduos de certas espécies de planorbídeos e prosobrânquios que apresentar aptidão a anidrobiose. O fato de os caramujos não ocorrerem em lagos ou lagoas, estando restritos apenas em determinados trechos sem nenhuma razão aparente exigem a realização de estudos mais apurados, uma vez que a dispersão ativa ou passiva permite a colonização indiscriminada dos sítios remansosos, com vegetação marginal ou emergente, comuns ao longo do curso de rios ou ribeirões (CARVALHO, 2008). Ainda segundo o mesmo autor, a excepcional funcionabilidade dos sitemas biológicos para a superação das adversidades ambientais, certamente assegura a colonização de biótopos distribuídos por grandes amplitudes geográficas e a manutenção de elevadas densidades populacionais pela maioria das espécies de Biomphalaria. Em relação aos parâmetros físico-químicos, pode-se afirmar que estes moluscos têm grande capacidade de tolerar uma ampla variação de salinidade, não sendo constatado nenhuma relação aparente na distribuição dos moluscos e a porcentagem de salinidade, concordando com Silva et al (2006), que diz que o referido animal constitui-se uma espécie vetora extremamente tolerante a variabilidade de concentrações salinas nas água e nos sedimentos. REFERÊNCIAS AB’ SÁBER, Aziz Nacib. Os Domínios de natureza no Brasil: Potencialidades Paisagísticas. São Paulo: Ateliê editorial, 2003 CONDER. Plano Diretor do parque Metropolitano de Pituaçú. Salvador,1978. CARVALHO, Omar dos Santos. Shistossoma mansoni e Esquistossomose: Uma visão multidisciplinar. São Paulo: Fiocruz, 2008. GAMBÁ. Monitoramento da Fauna do Parque Metropolitano de Pituaçú. Uma estratégia de conservação. Salvador: Grupo Ambientalista da Bahia. 1995. GOMES, Fabíola Borges. Encantos e desencantos do Parque Metropolitano de Pituaçú: Da preservação aos problemas ambientais, Programa de Pós-Graduação em Geografia – Universidade Federal da Bahia – UFBA, 2008. Ministério da Saúde. Vigilância. Série A. Normas e Manuais Técnicos. Controle de Moluscos de importância Epidemiológica 2ª ed. Brasilia. 2007. 13p. Neves, David Pereira. Parasitologia humana 11ª ed. São Paulo: ATHENEU, 2005 PAZ, Ronilson José da. Biologia e Ecologia de Biomphalaria glabrata (Say, 1818) (Mollusca: Pulmonata: Planorbidae), na Fazenda Árvore Alta, Alhandra (Paraíba: Brasil). 1997. Mestrado em Zoologia da Universidade Federal da Paraíba, PB. TUAN, Roseli. Distribuição e diversidade de espécies do gênero Biomphalaria em microrregiões localizadas no médio Paranamanema, São Paulo, SP, Brasil. Biota Neotropica. São Paulo. vol. 9, no. 1, Jan./Mar. 2009 SILVA, Petronildo Bezerra; BARBOSA, Constança Simões. Aspectos Físico-Químicos e Biológicos relacionados à ocorrência de Biomphalaria glabrata em focos litorâneos da Esquistossomose em Pernambuco. Quim. Nova, Vol. 29, No. 5, 901-906, 2006

JÚLIA VEIGA SANTANA
BA - SALVADOR

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