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  Saber Ambiental
05/10/2010

RICARDO PASIN CAPARROS
SP - SAO BERNARDO DO CAMPO
Saber e complexidade ambiental

Área(s) de Atuação que o Presente Artigo trata
Biologia
Educação
Educação ambiental


        O saber ambiental emerge no contexto da crise do meio ambiente, considerando os fatores que configuram sua complexidade e com vistas à construção de um futuro possível. Posiciona-se além do ecologismo naturalista. Excede as ciências ambientais e abre-se no campo dos valores humanos. Não se esgota no paradigma da ecologia (Leff, 2001, p.145). Apresenta-se como um projeto político de reconstrução do conhecimento, da reconstituição da identidade dos povos, da reapropriação do mundo em outras bases e da interiorização da condição humana (op. cit). Entende o ser como sujeito do seu tempo e história, e valoriza o poder transformador associado ao saber e ao querer saber. Um novo saber interdisciplinar que transcende a lógica do pensamento mecanicista para aprender os processos da vida; de todas as formas de vida. Questiona a compartimentalização do conhecimento e propõe a reflexão sobre sistemas socioambientais complexos. Para Leff (op. cit.), “o saber ambiental problematiza o conhecimento fragmentado em disciplinas e a administração setorial do desenvolvimento, para construir um campo de conhecimentos teóricos e práticos orientado para a re-articulação das relações sociedade-natureza”.

        O enfoque desse novo saber é integrador no sentido de conhecer a essência da causa ambiental, compreender a dinâmica dos processos ecológicos, econômicos, tecnológicos, culturais e éticos para repensar o real numa abordagem multidimensional. Considera a multiplicidade de experiências e práticas singulares de cada cultura, bem como suas especificidades locais. Sobre essa questão, Enrique Leff entende que:

 

(...) o pensamento da complexidade e dos princípios da racionalidade ambiental se comprometem e informam (nunca uniformizam) uma multiplicidade de experiências e práticas que adquirem sua concreção no singular de cada cultura e configuram a especificidade do local, e que, a partir de sua diversidade, estruturam esta nova racionalidade (2001, p.148).

 

        O saber ambiental articula o conhecimento científico com o saber popular e o senso comum. Estabelece o diálogo desde a discussão conceitual, até os níveis da prática cotidiana. Emerge da transformação do conhecimento impulsionado por uma crise da racionalidade econômica e instrumental da modernidade. Mais do que um paradigma do saber, um método para o desenvolvimento científico ou uma sistematização do conhecimento, a problemática ambiental traz para discussão questões teóricas e práticas provenientes de diversas áreas, para incorporar uma abordagem complexa, impossível de ser tratada por uma única ciência, historicamente constituída e legitimada.

        Entretanto, este não é um saber acabado. Longe disso, Leff (2001, p.149) propõe que o saber ambiental está em processo de gestação, em busca de sua condição de legitimação ideológica, de concreção teórica e objetivação prática. Sua construção funda-se na necessidade de um tratamento transdisciplinar acerca da problematização do paradigma dominante do conhecimento sob um enfoque holístico. Dessa forma, integra fenômenos de diversas áreas no sentido de promover outras construções teóricas sobre novas maneiras de ser e estar no mundo. Não se esgota na finalização do conhecimento. O saber ambiental não nega a racionalidade como parte integrante da condição humana, mas sim, o exagero, o racionalismo, a crença na racionalidade como caminho único, como solução para os problemas do mundo. A proposta é repensar a racionalidade em outras matrizes, pautada, também nos valores humanos, no incomensurável, na diversidade e na heterogeneidade. A construção teórica do saber ambiental propõe uma nova racionalidade que nasça do diálogo entre as partes que compõem o todo e sirva de suporte para a estruturação de sociedades em bases sustentáveis. Na perspectiva da construção dessa nova racionalidade Enrique Leff insere a discussão sobre a racionalidade ambiental:

 

A emergência do saber ambiental abriu novas frentes para o desenvolvimento das disciplinas sociais: a relação entre cultura e natureza, a complementaridade entre geografia e ecologia, a influência do meio na consciência e no comportamento social, as bases ecológicas de uma economia sustentável e a análise dinâmica de sistemas socioambientais complexos. Desta maneira, o saber ambiental transforma o campo do conhecimento gerando novos objetos interdisciplinares de conhecimento, novos campos de aplicação e novos processos sociais de objetivação onde se constrói a racionalidade ambiental (2001, p.151).    

 

Em outras palavras, significa transformar a relação sociedade X natureza pautada em processos de produção teórica e pesquisa científica com vistas ao desenvolvimento da consciência crítica dos povos no sentido da construção de outro paradigma da racionalidade ou da racionalidade ambiental. Oriunda da articulação entre os fenômenos naturais e sociais, da harmonização entre os ciclos ecológicos e econômicos, entre os processos tecnológicos e culturais, a racionalidade ambiental surge no espaço da gestão do meio ambiente. Entende o ser humano como parte integrante (e não mais importante) desta trama de fatores, capaz de interagir e interferir nos rumos do desenvolvimento das sociedades e dos ecossistemas.

        Negar o papel da educação neste processo significa ignorar o poder transformador dos processos educativos na constituição de seres humanos. A educação é um caminho para a construção de homens e mulheres conscientes de seu papel para com as sociedades humanas e a biosfera. Na dimensão da educação dialógica, em que os indivíduos se constroem em comunhão, mediados pelo mundo, esse mundo constitui o ambiente, que trás em seu âmago toda sua complexidade de realidades e fatores (Freire, 2005, p. 91). A educação que educa para a vida é aquela que tem compromisso com a sustentabilidade da existência humana e de todas as demais formas de vida. Esta educação entende o saber ambiental como um valor essencial na construção de seres humanos plenos de suas potencialidades e responsabilidades para consigo e para com o planeta. A educação ambiental é aquela que introduz a discussão da dimensão do saber ambiental no processo educativo. Não deve ser vista como algo extra ou desconexo de todo e qualquer nível ou modalidade de educação. Longe disso, a educação ambiental deve permear todos os processos educativos como valores mediadores da constituição humana. A educação ambiental é educação, na medida em que constrói valores associados à condição humana. Não deve ser vista como algo restrito a uma área do conhecimento ou um saber compartimentado ou disciplinar, mas sim, como um saber necessário ao desenvolvimento de sociedades mais justas do ponto de vista social, econômico e também ambiental. A educação ambiental se propõe a inserir a discussão sobre as bases da transformação do mundo atual em um mundo viável e sustentável para hoje e sempre.


RICARDO PASIN CAPARROS
SP - SAO BERNARDO DO CAMPO

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