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  Dos óleos contaminados aos animais e seres humanos: o efeito da biomagnificação causada pelas bifenilas policloradas (PCBs)
20/08/2012
atualizado em: 23/08/2012
Desde meados de 1970 a produção de óleos contendo bifenilas policloradas é proibida em todo o mundo, mas entre 1920 e 1970 sua produção foi massiva. Esse composto orgânico contaminou uma série de espécies pelo fenômeno da biomagnificação.

Área(s) de Atuação que o Presente Artigo trata
Biologia
Meio Ambiente e Biodiversidade
Gestão, Controle e Monitoramento em Ecotoxicologia


Dos óleo contaminado aos animais e seres humanos: o efeito da biomagnificação causada pelas Bifenilas Policloradas (PCBs)

William Roberto Luiz Silva Pereira

Em 13 de abril de 2011 foi assinado o Projeto de Lei Nº 1075/2011, que dispõe sobre a eliminação controlada das Bifenilas Policloradas – PCBs e dos seus resíduos, a descontaminação e a eliminação de transformadores, capacitores e demais equipamentos elétricos que contenham PCBs, e dá outras providências correlatas. Compreende 22 artigos, que determinam diversas medidas para o tratamento desse composto.

Os resultados da tese apresentada por Schröder (2009), em que foi constatado que o leite materno está contaminado por bifenilas policloradas – PCBs, foi utilizada para defender que algumas lacunas da legislação anterior necessitavam ser revistas quanto ao destino final dos equipamentos, óleos e resíduos contaminados, destino que deve ser apenas o da regeneração ou eliminação. Os artigos considerados no Projeto de Lei cuidam dos critérios a serem considerados para essas finalidades.

Já existem maneiras de fazer a descontaminação do óleo. Petrisor & Preda (2009) reviram algumas metodologias de descontaminação e proporam a utilização da combinação de métodos químicos e eletroquímicos, onde a solução faz a troca do grupo clorina da estrutura da molécula de PCBs por metais alcalinos, em cuja reação é obtida outra bifenila e passa ser um não PCB.

Interesses a parte, o problema das bifenilas policloradas ainda é grave. Schröeder (2009) verificou que o composto esteve presente em 58% das amostras de leite materno coletados no estado de São Paulo. Além do mais, ele é encontrado em amostras de solos (Jung et al., 2008), no ar (Estellano et al., 2012), já causou diversos acidentes, como o de Yoshu (Japão), de Yucheng (Taiwan) e a “Crise da Dioxina” (Bélgica), é suspeito de estar relacionada a alta incidência de leucemia nos países desenvolvidos (Ward et al., 2009), e há diversos estudos isolados que verificaram que trabalhadores que sofrem exposição massiva desse composto adquire alguns problemas de saúde.

Esse composto é também um biomagnificador. Esse conceito é fácil de entender. Podemos imaginar uma orca, que se alimenta de focas e peixes. As focas também se alimentam de peixes e outros animais menores; esses peixes menores se alimentam de pequenos animais (zooplâncton) e algas (fitoplâncton), e essas algas realizam fotossíntese. A cadeia simplificada é (nota: na natureza o que realmente existem são redes tróficas):

orca foca peixes fitoplâncton e zooplâncton

Podemos supor que a alga incorpore de alguma maneira os PCBs, os peixes comem as algas contaminadas e incorporam no seu corpo. A foca come o peixe contaminado e incorpora os PCBs e a orca come a foca que já está contaminada. Portanto, o composto foi biomagnificado à medida que um organismo foi consumido por outro ao longo da cadeia trófica. Tal fenômeno só ocorre porque os PCBs são persistentes, ou seja, não são biodegradados ou bioeliminados.

Num rápido levantamento bibliográfico, foi verificada uma série de estudos que constataram a presença de PCBs, em altíssimas, altas e baixas concentrações, em diversas espécies de mamíferos fluviais e marinhos, espalhados em todo o globo terrestre (fig. 1A e 1B). A lista de espécies é grande: lontra-do-rio (Lutra lutra); lontra-marinha (Enhydra lutris nereis); leão-marinho-da-Califórnia (Zalophus californicus); foca-de-Weddell (Leptonychotes weddelli); foca-comum (Phoca vitulina); elefante-marinho (Mirounga angustirostris); foca-monge-do-mediterrâneo (Mohachus monachus); foca-do-mar-Cáspio (Phoca caspica); golfinho-bico-de-garrafa (Tursiops truncatus); golfinho-branco-da-China (Sousa chinensis); golfinho-de-dentes-rugosos (Steno bredanensis); golfinho-rotator (Stenella longirostris); orca (Orcinus orca); tucuxi (Sotalia fluviatalis); beluga (Delphinapterus leucas); boto-do-rio-Ganges (Platanista gangetica); golfinho-do-rio-Prata (Pontoporia blainvillei); boto-de-Burmesiter (Phocaena spinipinnis); boto-índico (Neophocaena phocanoides); toninha (Phocaena phocaena); urso-marinho (Ursus maritimus). A figura 2 mostra a quantidade de PCBs encontrada nessas espécies descritas e a referência bibliográfica, dentre outras informações.

No Brasil são encontrados o tucuxi, o golfinho-rotator e o boto-de-Burmeister. O tucuxi teve a atenção de Yogui et al. (2003) que encontrou concentrações de PCBs em seu conteúdo lipídico. A partir dessa lista de animais, que possuem distribuição geográfica específica em toda a parte do mundo, não é um equívoco afirmar e extrapolar que todos os animais aquáticos, principalmente os predadores de topo, em pequenas ou grandes quantidades (em função da biomagnificação), possuem concentrações de PCBs no seu corpo. Para alguns animais, a situação é grave.

As orcas (Orcinus orca) estão entre as criaturas que sofrem as maiores contaminações por PCBs na Terra. Depois da verificação da gravidade desse fato (Ross et al., 2000), Hickie et al. (2007) se aproveitaram de modelos matemáticos, medidas de PCBs em salmão (a presa favorita da orca) e núcleos de superfície oceânicas para recriar o histórico de exposição e estimar as concentrações de PCBs na orca ao longo do tempo. Eles concluíram que a população ameaçada do norte de 230 animais irá encarar efeitos na saúde até 2030, enquanto a população ameaçada do sul, de 85 animais, encontrará os efeitos até meados de 2063. Os PCBs fazem as orcas se tornarem mais vulneráveis a doenças infecciosas, e impede seu crescimento normal e seu desenvolvimento.         

O urso-marinho (Ursus maritimus), que está no topo da cadeia alimentar marinha, recebeu uma das mais altas concentrações de OC (Organochlorated Compounds) entre as espécies de mamíferos do Ártico. Foi acompanhada a concentração de PCBs no plasma sanguíneo de 228 amostras de ursos (78 machos e 150 fêmeas) no país da Esvalbarda, durante 12 anos (1990-2002) com exceção de 1999-2001. Na nota de Verreault & Gabrielsen (2006), que faz referência a Verreault et al. (2005) foi considerado o monitoramento do PCB-153, que é encontrado em praticamente todos os componentes do ambiente, e geralmente se encontra em maiores concentrações em pássaros e mamíferos. Tal afirmação também é consistente nas amostras de urso-polar.

Essa é só umas das particularidades em torno da grande problemática envolvendo as bifenilas policloradas. O mundo inteiro está tomando medidas para amenizar o problema, tanto no nível jurídico, científico, político e econômico. Em 2001 o Brasil se tornou signatário da Convenção de Estocolmo e conforme o acordo, as providências também estão sendo tomadas.

Referências bibliográficas

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