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  O caso da invasão biológica da noz-do-mar (Mnemiopsis leidyi)
23/01/2012
Aprendemos com o erro, fato. Mas o caso da invasão da noz-do-mar não foi um erro, nem um acidente, foi um incidente. Provavelmente migrou na água de lastro de algum navio e desembarcou no Mar Negro e Cáspio. As conseqüências foram catastróficas.

Área(s) de Atuação que o Presente Caso trata
Biologia
Meio Ambiente e Biodiversidade
Biomonitoramento
Diagnóstico, Controle e Monitoramento Ambiental


O caso da invasão biológica da noz-do-mar (Mnemiopsis leidyi)

 

William Roberto Luiz Silva Pereira

Acessor técnico da I2S – Inteligência para Sustentabilidade

 

 Algumas vezes assistimos documentários sobre a vida no mar e vemos uns seres gelatinosos e transparentes que nos chamam a atenção. Algumas formas são de extrema beleza, muitas vezes parecendo um guarda-chuva com movimentos pulsáteis, com tentáculos que circulam a abertura da sua forma e às vezes outros tentáculos bem maiores que saem do seu interior. Outras formas possuem o fenômeno da bioluminescência, que as fazem brilhar como as luzes de árvore-de-natal. Elas possuem músculos, sistema nervoso e membranas basais e alguns possuem órgãos sensoriais. E possui um tipo de célula chamada de coloblasto, distribuídas nos seus tentáculos, que espalham um gel adesivo sobre a superfície de sua presa (elas são predadoras carnívoras) e essas células possuem um mecanismo de amortecimento que não deixa a presa fugir.

É claro que essa é uma descrição de uma água-viva. Errou! Essa é a descrição de um ctenóforo, que pertence a um grupo de animais agrupados num filo próprio Ctenophora com particularidades próprias que as separam do filo Cnidaria (onde estão agrupadas as águas vivas).

São predadoras vorazes, podendo consumir até 10 vezes o seu peso corporal num dia. Há espécies que se alimentam de outros ctenóforos. Outras que se alimentam de zooplancton, moluscos, larvas de peixes e pequenos crustáceos adultos. E há outras espécies de ctenóforos que se alimentam de cnidários, que ainda se aproveita dos nematocistos (células de ataque que existem nos cnidários) substituindo-as pelos seus coloblastos. Os ctenóforos são comparados como “as aranhas do mar”, pela grande variabilidade de formas de atacar as suas presas, com comportamentos análogos ao comportamento da aranha que vive em terra firme.

Elas vivem em seus ambientes naturais e mesmo que sejam predadoras, não causam impactos ecológicos, pois o ambiente, as interações biológicas e a sazonalidade, de alguma forma ou outra, regulam suas populações, não deixando que haja uma explosão populacional. Além do mais, elas são predadas por algumas espécies de peixes generalistas, por tartarugas-marinhas e mesmo por outras espécies de ctenóforos e cnidários. E são parasitadas por anêmonas-do-mar e platelmintos.

Porém algo catastrófico pode ocorrer quando elas saem de seu ambiente natural, como é o caso do ctenóforo Mnemiopsis leidyi, chamado de “gelatina-de-cerdas” americana ou “noz-do-mar”.

A população da noz-do-mar pode crescer rapidamente quando o suprimento de alimento é abundante. Esse ctenóforo pode se alimentar, além de zooplancton e pequenos crustáceos, de ovas e larvas de peixes e quando ela entra num ambiente inóspito ela domina a comunidade de organismos zooplanctônicos (grupo de organismos que faz parte da cadeia alimentar marinha, servindo de alimentos para outros seres superiores, como peixes).

Então a nós-do-mar promove um imenso desequilíbrio ambiental, se alimentando das ovas de larvas de peixes e tomando o espaço de todo o zooplancton presente que serviria de alimento para os próprios peixes. E além do mais os peixes não gostam de comer o ctenóforo. Ou seja, o impacto maior da invasão provocada pela nós-do-mar é sentido primeiramente nas populações de peixes.

Foi exatamente o que aconteceu em 1989 no mar Negro. O constante tráfego de navios acabou introduzindo nos anos 80 a nós-do-mar, que vivia originariamente nas Américas. Ao encontrar o ambiente extremamente favorável, sua população cresceu numa taxa absurdamente alta, atingindo a densidade de 7600 indivíduos por metro quadrado, causando um colapso na população da anchova (Engraulis encrasicholus), que conseqüentemente impactou a população de peixes predadores que se alimentavam da anchova e a população de golfinhos, ambos em cadeias tróficas superiores. Uma catástrofe ambiental em cadeia.

Em 1999 algumas populações de peixes do mar Cáspio também entraram em colapso devido à invasão desse predador feroz.

Em 2006 a nós-do-mar foi encontrado na costa sul da Dinamarca e em 2007 foi registrado o seu espalhamento para outras regiões. Estudos locais na Dinamarca encontraram uma relação de competição interespecífica entre a medusa-da-lua Aurelia aurita e a noz-do-mar, demonstrando que a medusa em altas densidades populacionais exclui a noz-do-mar. Isso foi confirmando indiretamente ao verificar que nessas regiões a medusa tem um alto potencial predatório sobre o zooplâncton, onde provavelmente impedia a persistência populacional do ctenóforo. Eles verificaram também que a abertura do orifício da medusa diminui com a diminuição da sua densidade populacional, cujo declínio teria origem na diminuição de presas, que fez diminuir a sua capacidade predatória.

Agora em 2009 há áreas nas águas Escandinavas onde a densidade de noz-do-mar alcançou os mesmos valores quando a população de peixes entrou em colapso no Mar Negro.

A noz-do-mar também se encontra no Brasil e é abundante no Canal de São Sebastião, ocorrendo todo o ano em águas rasas próximas da costa. O histórico péssimo fez os pesquisadores brasileiros temerem a sua presença. Entretanto eles encontraram outras espécies que a predam, como o ctenóforo Boroe ovata e alguns Cifomedusídeos. Já é conhecido que a introdução de B. ovata no Mar Negro ajudou no decréscimo da abundância da noz-do-mar e por isso os pesquisadores brasileiros ficaram mais “tranqüilos”.

Uma atitude inicialmente sem importância de introduzir um animal simples num ambiente diferente de sua distribuição geográfica natural não traria graves conseqüências. Mas o caso da nós-do-mar fez com que a comunidade científica e as pessoas que dependem do recurso pesqueiro temessem a sua presença. Mas ele não é um invasor, apenas faz a sua missão biológica e ecológica. Não surgiu de um atentado nem de algum erro humano. Provavelmente uma leva desses seres embarcou num navio, que depende de um grande estoque de água no seu interior para regular sua estabilidade (chamada de “água de lastro”). A nós-do-mar foi translocada semelhante ao caso dos caramujos-africanos que habitam a as praias da baixada Santista. Esses caramujos provavelmente vieram de navio também.

Da mesma maneira que fazemos cruzeiros para passear e curtir, porque um ctenóforo ou um caramujo não pode entrar de gaiato por engano também?


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