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20/10/2010  Empresas estatais vetam profissionais formados em cursos tecnológicos
CAROLINA FRANCO ESTEVES
SP - SAO JOSE DOS CAMPOS

Essa é para o Serra

Apesar do aumento da oferta desses cursos - o número de vagas no País cresceu 45% em
dois anos -, companhias como Petrobras, Caixa Econômica Federal, EMTU e Metrô de São
Paulo excluem os tecnólogos dos editais de seus concursos públicos
Profissionais formados em cursos superiores tecnológicos - como os da Faculdade de
Tecnologia de São Paulo (Fatec) - enfrentam dificuldades de acesso ao mercado de
trabalho por não terem o título de bacharel. Apesar dos discursos favoráveis de
governos e especialistas, empresas estatais, como Petrobras, Caixa Econômica
Federal, EMTU e Metrô de São Paulo, excluem os tecnólogos dos editais de concurso
público.

A oferta de cursos superiores tecnológicos vem crescendo no País, em grande parte
incentivada pelos governos federal e estaduais. Em apenas dois anos, de 2006 a 2008,
o número de vagas desses cursos cresceu 45%, segundo os dados mais recentes do Censo
da Educação Superior do Instituto de Pesquisas Educacionais (Inep). Os alunos da
graduação tecnológica representam 10% do total de matriculados no ensino superior.

Um dos motivos da exclusão dos tecnólogos dos quadros de funcionários é a lentidão
no processo de mudança de algumas companhias, acredita a professora de gestão de
pessoas da Fundação Getúlio Vargas Anna Cherubina Scofano. "Temos alguns elefantes
brancos que não se atualizam. Seria preciso mexer em práticas já institucionalizadas
e fazer uma análise de mercado e dos cursos", afirma. "Mas grande parte do mercado
aceita bem, porque dá enfoque para as competências."

Marcus Soares, professor de gestão de pessoas do instituto Insper, atribui o
fenômeno em grande parte a um "mal entendido". "Há uma confusão com a nomenclatura
da profissão, que cria uma interpretação incorreta de que é um curso técnico, de
menos valia", afirma. "Quando uma empresa contrata, quer sempre alguém com formação
melhor do que exige a posição. Isso também pode contribuir para a discriminação."

Segundo o professor, a discriminação tende a diminuir a médio e longo prazo por
causa do chamado "apagão de mão de obra". "O mercado pode ser forçado a mudar. Se
aumentar a demanda por mão de obra e as companhias quiserem preencher seus cargos,
elas vão ter de aceitar os tecnólogos."

Para o presidente do Sindicato dos Tecnólogos, Décio Moreira, a reserva de mercado
de outras categorias também causa dificuldades aos formados. "A empregabilidade dos
cursos é alta, mas a questão é o tipo de responsabilidade que nos deixam assumir. Um
tecnólogo está completamente apto em sua área de formação, mas nem sempre isso é
reconhecido", diz.

O tecnólogo em instalações hidráulicas José Eduardo Radaelli enfrentou problemas com
o Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de São Paulo (Crea-SP).
"Precisei entrar na Justiça. Em 2005, consegui uma liminar que me autorizava a
assinar projetos na minha área", contou. Mesmo com as dificuldades, Radaelli não se
arrepende da opção por um curso tecnológico. "Apesar da discriminação, recomendo
plenamente o curso."

O coordenador de Ensino Superior do Centro Paula Souza (que mantém as Fatec), Angelo
Luiz Cortelazzo, diz que a dificuldade com os órgãos de classe é natural. "Toda nova
profissão tem dificuldade em se estabelecer. Isso vai melhorar com a ocupação dos
espaços corporativos pelos tecnólogos."

Cortelazzo acredita que uma postura mais correta das instituições de ensino também
ajudaria a classe. "Às vezes são as próprias faculdades que fazem propaganda dos
cursos de tecnologia como "rapidinho", dizem que você pode em seguida fazer uma
graduação "plena"", critica.

Carga horária e formato diferem, diz Petrobras

A Petrobras informa que não aceita tecnólogos em seus processos seletivos porque
"para a empresa, existem diferenças nos diplomas de graduação de ensino superior,
seja quanto à carga horária, seja quanto à abrangência de atuação". "O currículo de
bacharel atende à companhia, visto que contém disciplinas importantes para o
exercício de atribuições na indústria do petróleo", diz a nota.

A Caixa Econômica Federal explicou que abre concursos para técnico bancário, para os
quais não há exigência de curso superior, e para carreiras como advogado, arquiteto,
engenheiro. Nesses casos, "exige-se diploma" e também o registro em órgão de classe.

A Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos de São Paulo (EMTU) informou que
define o perfil profissional mais adequado às suas necessidades de pessoal, conforme
permite a legislação vigente. "A condição de gestora e não de operadora do sistema
intermunicipal de transportes faz com que cargos de graduação superior com maior
carga horária sejam mais adequados à natureza da empresa", afirma o texto enviado ao
Estado.

A Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) informou estar aberta à
contratação de tecnólogos no futuro.
(Luciana Alvarez)
(O Estado de SP, 20/10)

CAROLINA FRANCO ESTEVES
SP - SAO JOSE DOS CAMPOS

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